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A casa ao lado

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contos terror

Outro dia quase acordei antes da hora, mas não consegui. É que ainda estava dentro de um sonho. E digo isso porque ela estava lá, rindo de mim enquanto eu acompanhava os seus cabelos arrastando pelo chão, molhando tudo.

Eu sabia que era um sonho porque a segui até a casa ao lado. Desperto, eu jamais faria isso.

O portão enferrujado estava entreaberto, o rastro de lama seguia da sala para a cozinha. Da cozinha, que cheirava a mofo e pão velho, para o quintal, um amontado de lixo e capim valente que rasgava as paredes frias e manchadas. Ainda que fosse do lado de fora, eu já não enxergava quase nada. Nessa hora eu fiquei mais tranquilo, afinal, se fosse de verdade, eu já teria corrido.

Era apenas um sonho sim, daqueles ruins. Que nos assustam a fim de nos alertar de algo que está à nossa espreita, arrepiando a nuca. Dessa força invisível que nos aperta o coração e chupa todo ar de dentro da gente.

Quando a procurei, ela não estava mais no quintal. Não dei mais nenhum passo. Olhei para cima para contemplar a lua vermelha que crescia no céu limpo e sem estrelas. E foi aí que veio aquele bafo frio. Foi quando senti aquelas unhas podres me cortando o ombro. Desceram o braço inteirinho, rangendo com aquela risada fedida.

Não podia olhar para trás, eu sabia dentro de mim. Se eu a visse, seria o fim.

Pensei até em acordar, já que era apenas um pesadelo tardio, daqueles que aguardam até bem cedinho, poucos segundos antes do despertador começar a gritar.

Era um sonho sim, eu tinha certeza. Só não sei porque doía tanto minha carne rasgando até o osso nu.


📅 Originalmente escrito no dia 8 de Outubro de 2022.

👀 Esse conto escrevi depois de ler o livro de contos da escritora argentina Mariana Enriquez chamado “As coisas que perdemos no fogo”. Recomendo.

📷 Foto de Eren Özdemir

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