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Delito de Amor em Salvador

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Contos Soteropolitanos - Este post faz parte de uma série.
Parte 1: Este post

Delito de amor em Salvador
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Vieram de mãos dadas, mas não se olhavam. Não prestavam atenção nem mesmo nas pessoas ao redor. Elas que desviassem, se quisessem. Eles não, andavam em linha reta. Pisavam na grama, derrubavam placas com nomes de plantas em latim e até pisaram em algumas formigas que morreram sem cumprir suas horas diárias de trabalho.

Ela era mais alta. Suas tranças iam até o meio das costas e no braço esquerdo carregava uma bolsa daquelas que mudavam de cor. Ele ostentava um batidão de prata no pescoço, usava o cabelo na máquina um e vestia uma camisa do PFC Cajazeiras. Ninguém ali, exceto os dois, sabia da existência daquele time. E era esse o tipo de piada interna que eles curtiam. Deleitavam-se observando outras pessoas tentando compreender o que usavam. Às vezes, alguns mais ousados perguntavam se a bolsa dela era alimentada por energia solar ou ‘o quê?’. Quando isso acontecia, a mulher dava uma risada bem gostosa e cheia de dentes, respondia ‘o quê’ e dava um tapinha na bolsa para ela trocar de cor outra vez.

Os dois andaram do Campo da Pólvora até o Dique do Tororó sem sequer se darem ao trabalho de olhar pros lados ao atravessar as ruas. Pararam bem na margem, de frente para as estátuas dos Orixás restauradas com zinco prateado. Primeiro jogaram alguns pertences no chão, a bolsa, o batidão e todos os acessórios e penduricalhos que completavam o visual. Depois começaram a se despir. Ela tirou toda a roupa até ficar de maiô — “azul Iemanjá”, a mulher gritou para uma jovem que estava ao seu lado — , antes da menina sequer abrir a boca. A garota, que usava um daqueles bonés de aba dupla da moda, só queria saber onde ela havia comprado aquele acessório deslumbrante, mas aceitou a resposta de bom grado e ficou calada observando o rapaz tirar a roupa também.

Ele despiu-se até ficar apenas de sunga branca. A camisa do PFC Cajazeiras foi a única peça que dobrou com cuidado antes de jogar na grama por cima de todos os seus pertences.

Um guarda municipal surgiu de cima de um aerociclo barulhento. Apitou três silvos agudos e parou defronte ao casal.

— Que putaria é essa, posso saber companheiros? — O guarda falou enquanto jogava seu boné azul marinho (com o emblema da pomba branca da Prefeitura Municipal de Salvador) nas águas turvas do Dique.

A menina, que só queria tirar uma dúvida simples, olhava, estupefata, o guarda arrancar o resto do seu uniforme com ódio e destreza. Os botões da camisa estouravam e escapuliam no ar como rolhas de Espumante. Antes de jogar sua camisa sem os botões pro alto, ele a girou três vezes acima de sua cabeça que brilhava de suor. No aerociclo, que continuava planando ao seu lado, ele guardou o apito e o distintivo antes de virar-se para o rapaz de sunga e a mulher de maiô.

— Eu perguntei, que putaria é essa casal? — O guarda, que essa altura estava vestindo apenas uma cueca box cinza, parou entre os dois e balançou a cabeça esperando uma resposta.

A mulher correu para trás do oficial municipal. O rapaz foi para o outro lado e parou bem na frente do guarda, puxou a sunga branca mais pra cima, colou o rosto nele e falou, levantando os braços para a plateia que se formava naquela tarde quente que só a disgraça:

— É a dança do maxixe, só que ao invés de duas mulheres, vão ser dois homens.

— Oxe, oxe, oxe, como assim? Quede o alvará da prefeitura campeão? — Perguntou o guarda.

— Que ará? Tenho nada aqui comigo não, viu. E te digo mais — o rapaz apontava o dedo mole quase dentro da boca do guarda — se você for esse oficial todo, pode chamar alguém pra me prender. Se amar demais for crime, prenda nós tudo aqui! — Disse o homem abraçando a mulher com força e amassando o oficial que suava feito cuzcuz entre eles.

A multidão, que a essa altura se aglomerava em torno dos três, começou a cantar “É um guarda no meio com um casal fazendo sanduíche…”.

Um rojão foi aceso. Dois cachorros vira-latas saíram correndo atrás de um robô de entregas e algumas crianças começaram a chorar pois estavam ali esperando há mais de uma hora de relógio o show da dupla robótica boboti, bobotá.

A menina do boné de aba dupla aproveitou o fuzuê, desviou de um drone que desceu do nada com um isopor lotado de cerveja, e saiu esgueirando-se no meio daqueles corpos salgados de suor.

Ela saiu se arrastando até alcançar a bolsa da mulher que já estava laranja, da cor do céu.

— Sabia! — Como ela já desconfiava desde o início, era mesmo da Xiaomi.


👀

Publiquei esse conto orignalmente no Medium em 2 de Junho de 2021. A história surgiu do nada na minha mente, quando eu me lembrei que aqui em Salvador, qualquer aglomeração que se forme, aparece gente do nada pra animar, surgem vendedores com isopor lotados de bebida, cachorro, criança chorando, o caralho aquático. Gosto de imaginar o futuro de Salvador preservando as mesmas coisas comuns que acontecem na cidade há séculos.

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