Desculpe a minha lerdeza. Eu deveria ter entendido o acordo tácito no momento em que você me convidou para assistir um filme na sua casa. Não sei se eu era desligado demais ou se a culpa é do meu amor genuíno pelo cinema. Filmes me transportam para outro lugar e, porra, você escolheu Machete Mata. Aí complica.
Não que eu gostasse mais do Danny Trejo do que de você. Não mesmo… Tenho o cérebro avariado, mas não a esse ponto. Mesmo que eu tivesse entendido a real, como o clima poderia esquentar depois de ver o protagonista pular de um prédio usando a tripa de uma vítima como corda? Me explica!
Se era um teste, eu vou culpar o meu processamento lento por conta da sequência de falhas cometidas naquela noite. O erro fatal foi deixar você dar o play no DVD, né? Anos depois, a ficha finalmente caiu.
Já estávamos naquele esquema de saídas esporádicas há semanas. Na minha cabeça, ver um filme na sua casa — o ato de assistir à película em si, e não aquela outra coisa que qualquer pessoa no mundo entende — era um avanço. Um passo em direção a algo mais sério. Em minha defesa, sempre levei a ferro e fogo o clássico ensinamento materno de que eu não era todo mundo.
E, pelo visto, não sou mesmo. Percebo isso agora. Tarde demais, eu sei.
É uma pena que seja tarde. Foi estranho não poder me despedir. Espero que, em outra realidade, você consiga rir ao lembrar desse dia. Afinal, o que somos além de um amontoado de lembranças? Algumas que dão orgulho, outras que só trazem vergonha. Existe um momento, que chega sem avisar, em que o que era motivo de vexame se transforma em uma risada, nem que seja um sorriso daqueles de canto de boca.
Para mim, esse dia chegou.
P.S.: Machete Mata era bom demais para ser ignorado. Foi mal pelo vacilo!
📷 Foto de um casal assistindo a um filme no sofá. Créditos: Tima Miroshnichenko
