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Um filme na minha casa

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Crônicas de um Desencontro - Este artigo faz parte de uma série de artigos.
Parte : Esse Artigo

O plano era infalível. Passei a semana ensaiando o convite, escolhendo o vinho e arrumando a sala para que tudo parecesse casual e, propositalmente, aconchegante. Ele era diferente dos outros, um pouco desligado, sim, mas tinha aquele brilho nos olhos de quem se importa com as detalhes. De quem aprecia a sétima arte de verdade, não por modismo.

E foi aí que eu cometi o meu erro estratégico: deixei ele escolher o filme.

Quando ele puxou Machete Mata da pilha de DVDs que surrupiei de meu irmão, eu devia ter me atentado. Achei primeiro que era uma piada. Uma ironia fina, talvez? “Ele quer ver se eu sou mesmo descolada”. Sorri, aceitei e sentamos no sofá. Nada estava perdido ainda, pelo menos era o que acreditava.

Meu plano era simples: mais ou menos aos vinte minutos, eu deixaria a minha cabeça cair no ombro dele. Aos quarenta, no máximo, nossas mãos se encontrariam na pipoca.

Só que Danny Trejo apareceu na tela.

Enquanto eu tentava criar um clima, o protagonista me puxou a porra das tripas de um infeliz para usar como corda de rapel em uma fuga emblemática. Eu olhava para ele, esperando um sinal de nojo ou um riso cúmplice que nos levasse a um beijo demorado, mas o que encontrei foi… devoção. Ele estava hipnotizado. Seus olhos faiscavam com a sucessão de efeitos práticos mequetrefes enquanto eu tentava, transtornada, encontrar uma deixa entre uma decapitação e outra.

Houve um momento em que nossas mãos quase se tocaram. Só que ele desviou para gesticular sobre a “estética do cinema trash”. Ou sei lá que merda foi que ele disse. Ali, entre o som de tiros e diálogos absurdos, eu percebi: Ele não estava se fazendo de difícil. Ele estava, literalmente, vendo o filme.

Seria pedir demais que, naquele dia, ele fosse um pouco menos… ele? Que se ligasse que o DVD era só uma desculpa para o que eu gostaria que acontecesse entre a gente?

A vida é um roteiro escrito à toque de caixa e a minha seguiu uma cronometagem célere e regressiva. Aquele foi um dos nossos últimos momentos juntos. Ele não tinha ideia, como poderia saber?

P.S.: Eu odiei o filme. Mas adorava o jeito que você olhava para ele.


📷 Foto de uma mulher comendo pipoca na cama enquanto assiste a um filme. Créditos: JESHOOTS.com

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