Minha mãe me ensinou a sempre sorrir para as pessoas. Por mais que eu fosse introvertido, segundo ela, sorrir e acenar abririam portas. E de fato funcionou por algum tempo. Consegui contatos, relacionamentos estáveis e uma segurança financeira bem razoável em tempos onde até os banhos são contados.
Inconscientemente, eu entro no prédio já sorrindo. Passo pela recepção, olho pra tela, certifico que estou na posição correta e as câmeras agora checam tudo. Se eu sou eu mesmo – tem dias que, confesso, nem sei – se estou apto a trabalhar, se estou triste, se vou performar bem no que tange incentivar pessoas a desistirem de seus direitos, sabe, só mais um dia comum de trabalho.
Sinto saudades de quando eu falava com alguém, mas agora só vejo telas e ouço bips. Sorrio, passo. Sorrio, volto. Sorrio, subo o elevador.
Pareço um imbecil sorrindo pra ninguém, as câmeras não precisam do meu sorriso, por isso na quarta eu resolvi entrar com a cara neutra e, sem surpresas, a porta abriu. O elevador chegou. Passei meses gastando os meus músculos faciais para nada.
Tudo normal até o dia seguinte, quando antes de me posicionar para entrar no prédio, a impressora térmica deixou um aviso para mim.
“Notamos uma mudança em seu comportamento, favor retornar à sua conduta habitual.”
Nem o sorriso era meu mais.
📷 Foto de David Yu
Descrição da imagem: Close-up detalhado de uma câmera de segurança CCTV, mostrando a lente circular e a estrutura metálica do equipamento de vigilância, capturando a presença constante e onipresente do monitoramento em espaços urbanos e corporativos.

