Os campos prateados deram lugar a uma infinita planície desolada. Reny ensaiava sorrisos no reflexo da janela enquanto pensava na pessoa que a disse que o que importava era a jornada, não o destino. Sério, só alguém sem um propósito poderia acreditar em tamanha idiotice. Ela não. Ela sabia muito bem o que queria.

A maior prova disso lhe coçava a pele debaixo do pescoço. Uma veia artificial pulsava imitando o movimento dos seus fluídos corporais, mas qualquer equipamento mequetrefe do governo denunciaria que ela carregava uma obscenidade de alterações ilegais.

Seu plano – ensaiado exaustivamente – não duraria mais do que o necessário. Ela desmascararia os idiotas que Idris entregou-lhe de bandeja a tempo de retornar no mesmo trem. Seu olho esquerdo filmaria tudo. Os outros dispositivos subcutâneos anulariam as defesas e puxaria todas as fichas com subornos e montantes ilegais que circulavam naquele fim de mundo. E o melhor, ninguém do governo dava a mínima de fazer a segurança daquele local. Ela estaria a salvo com suas ilegalidades temporárias.

Eles sorriam, o que a deixou surpresa. O ar era mais seco do que imaginara, implacável para seus pulmões urbanos. Ela ajustou o guarda-sol sem pressa e observou com um sorriso contido os olhos arregalados daqueles idiotas. Em alguns segundos o sistema seria hackeado e ela os encurralaria como cordeiros azuis de Olaris.

Ao pisar na estação, Reny ouviu um latido. Dois, três. Os cães surgiram das sombras farejando o ar. Os olhos brilhando, varrendo o seu corpo.


📷 Foto de Ludmila Nilava
Descrição da imagem: Mulher em jaqueta de couro e óculos futuristas, com traço facial tipo circuito sob luzes neon.

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