Reny respirou fundo, seu pulmão vivo queimando. A ventoinha do outro lado girava depressa.

Com dois toques atrás da orelha direita, desligou os componentes cibernéticos. Ela teria que se lembrar como respirar e movimentar a pálpebra para lubrificar o olho direito, o outro estava inoperante. Os cachorros a encarando como estátuas.

Seu guarda-sol era imenso, multicolorido e também inútil para lhe proteger da radiação. Os dois idiotas eram mais destruídos do que as imagens vivas mostravam. O mais alto bateu três palmas e os cachorros iniciaram uma sequência acrobática.

— Treinados na Companhia Circense Auroriana.

— Isso é pra me impressionar? — perguntei, enquanto o mais baixo caminhou até a cabine do Sônico.

— Eu não me canso de ver.

— Sou uma idiota mesmo, não sou? — O mais baixo fez um sinal de Jireh e o Sônico fechou as portas.

— Se fosse a gente não escolheria você. Ligue seus componentes cibernéticos, seu olho vivo está vermelho.

— Quanto vocês pagam? — Apontei para o vazio, o trem havia partido num estrondo — excelente, presa aqui até o próximo solstício.

— Presa é uma palavra muito forte.

— É o que então?

— Estamos velhos e cansados, olhe pra gente — ele puxou um pseudocigarro, o outro chegou por trás colocando as mãos sobre seus ombros, um cheiro de óleo e canela no ar — é hora de alguém mais jovem assumir o controle.

Uma lágrima escapou, felicidade?

Reny preferiu ligar os componentes cibernéticos antes de conferir se não era sangue que escorria de seu olho vivo.


📷 Foto de Armando Belsoj
Descrição da imagem: Mulher sob um guarda-sol iluminado em neon ciano e magenta.

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