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Equilíbrio

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Confinamentos Digitais - Este artigo faz parte de uma série de artigos.
Parte : Esse Artigo

O visor da esteira está sendo invadido por pixels mortos. Uma mancha escura que surge como uma infecção, apodrecendo todos os seus dados vitais. Ao invés do gráfico de sua frequência cardíaca, a tela cospe o feed granulado de uma câmera de segurança: Uma mulher com um casaco amarelo entra em uma loja de conveniência. Você sabe, por conta da fisgada em seu diafragma, quem ela é.

A ficha dela brotou em sua tela ontem, ainda de madrugada. O Escritório de Anomalias classificou como prioridade. Você aumenta a velocidade para 12 km/h. Seus pés batem na borracha com um som seco, o único metrônomo que impede que tudo desmorone. Que as prateleiras descolem das paredes e flutuem, que gases encontrem uma faísca e levem tudo pelos ares.

O ar do studio de ginástica tem aquele cheiro abafado de suor reciclado. De quem já desistiu de entender o sentido das coisas. Cada linha temporal simulada aponta uma catástrofe diferente; como manter o ritmo cardíaco médio-alto tendo esse conhecimento? Se nada vai adiantar, por que você ainda continua feito hamster girando sem parar a rodinha numa gaiola enferrujada? Os gases são misturados para gerar o cheiro do mel de abelhas Mandarinas, o mesmo do pote que rolou no chão, estrategicamente, até as mãos finas dela.

Seus joelhos já não são os mesmos. Eles protestam numa linguagem de estalos que você finge não compreender. Que ignora como as notícias sobre o fim do mundo. Frases soltas que não se abraçam aos seus rascunhos ditados em voz moderada antes de dormir. Você olha para as suas mãos, suadas, agarradas ao suporte de pseudo plástico daquela máquina vagabunda. Existe um fio de dignidade, ainda que patética, de ser o contrapeso invisível do caos de outra pessoa.

O visor pisca. A imagem da mulher esguia se dissolve em estática. O reflexo no vidro da janela indica que a chuva parou. Tudo está suspenso, esperando apenas o seu comando. A sua ordem.

Seu dedo hesita sobre o botão vermelho. A dúvida não existe, você bem sabe o que vai acontecer se você parar. A pergunta é: Quem vai limpar toda a bagunça se você, enfim, decidir que está cansada demais para ser a heroina da história de outra pessoa? Ainda mais daquela ridícula. Então ele surge. O homem do guarda-chuva colorido. Você aperta o botão verde, respira ofegante por um tempo até se recuperar. O mundo ainda vai acabar, mas não agora.


Foto de cottonbro studio: https://www.pexels.com/pt-br/foto/estudio-dentro-de-casa-interior-digital-8721339/

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