<?xml version="1.0" encoding="utf-8" standalone="yes"?><rss version="2.0" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><channel><title>MSMelo.Blog</title><link>https://msmelo.blog/</link><description>Recent content on MSMelo.Blog</description><generator>Hugo -- gohugo.io</generator><language>pt-br</language><copyright>Copy, _right?_ 🤔</copyright><lastBuildDate>Mon, 09 Mar 2026 00:01:00 -0300</lastBuildDate><atom:link href="https://msmelo.blog/index.xml" rel="self" type="application/rss+xml"/><item><title>Equilíbrio</title><link>https://msmelo.blog/posts/equilibro/</link><pubDate>Mon, 02 Mar 2026 10:00:00 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/equilibro/</guid><description>Existe um fio de dignidade, ainda que patética, de ser o contrapeso invisível do caos de outra pessoa.</description><content:encoded>&lt;p&gt;O visor da esteira está sendo invadido por &lt;strong&gt;pixels mortos&lt;/strong&gt;. Uma mancha escura que surge como uma infecção, apodrecendo todos os seus dados vitais. Ao invés do gráfico de sua frequência cardíaca, a tela cospe o feed granulado de uma câmera de segurança: &lt;em&gt;Uma mulher com um casaco amarelo entra em uma loja de conveniência.&lt;/em&gt; Você sabe, por conta da fisgada em seu diafragma, quem ela é.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A ficha dela brotou em sua tela ontem, ainda de madrugada. O &lt;strong&gt;Escritório de Anomalias&lt;/strong&gt; classificou como prioridade. Você aumenta a velocidade para &lt;strong&gt;12 km/h&lt;/strong&gt;. Seus pés batem na borracha com um som seco, o único metrônomo que impede que tudo desmorone. Que as prateleiras descolem das paredes e flutuem, que gases encontrem uma faísca e levem tudo pelos ares.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O ar do studio de ginástica tem aquele cheiro abafado de &lt;em&gt;suor reciclado&lt;/em&gt;. De quem já desistiu de entender o sentido das coisas. Cada linha temporal simulada aponta uma catástrofe diferente; como manter o ritmo cardíaco médio-alto tendo esse conhecimento? Se nada vai adiantar, por que você ainda continua feito hamster girando sem parar a rodinha numa gaiola enferrujada? Os gases são misturados para gerar o &lt;strong&gt;cheiro do mel de abelhas Mandarinas&lt;/strong&gt;, o mesmo do pote que rolou no chão, estrategicamente, até as mãos finas dela.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Seus joelhos já não são os mesmos. Eles protestam numa linguagem de estalos que você &lt;em&gt;finge&lt;/em&gt; não compreender. Que ignora como as notícias sobre o fim do mundo. &lt;strong&gt;Frases soltas que não se abraçam&lt;/strong&gt; aos seus rascunhos ditados em voz moderada antes de dormir. Você olha para as suas mãos, suadas, agarradas ao suporte de pseudo plástico daquela máquina vagabunda. Existe um fio de dignidade, ainda que patética, de ser o contrapeso invisível do caos de outra pessoa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O visor pisca. A imagem da mulher esguia se dissolve em estática. O reflexo no vidro da janela indica que a chuva parou. &lt;em&gt;Tudo está suspenso&lt;/em&gt;, esperando apenas o seu comando. A sua ordem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Seu dedo hesita sobre o botão vermelho. A dúvida não existe, você bem sabe o que vai acontecer se você parar. A pergunta é: &lt;strong&gt;Quem vai limpar toda a bagunça se você, enfim, decidir que está cansada demais para ser a heroina da história de outra pessoa?&lt;/strong&gt; Ainda mais daquela ridícula. Então ele surge. O homem do guarda-chuva colorido. Você aperta o botão verde, respira ofegante por um tempo até se recuperar. O mundo ainda vai acabar, &lt;strong&gt;mas não agora.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Foto de cottonbro studio: &lt;a
href="https://www.pexels.com/pt-br/foto/estudio-dentro-de-casa-interior-digital-8721339/"
target="_blank"
&gt;https://www.pexels.com/pt-br/foto/estudio-dentro-de-casa-interior-digital-8721339/&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/equilibro/featured.jpg"/></item><item><title>Um filme na sua casa</title><link>https://msmelo.blog/posts/um-filme-na-sua-casa/</link><pubDate>Mon, 02 Mar 2026 00:00:00 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/um-filme-na-sua-casa/</guid><description>O erro fatal foi deixar você dar o play no DVD, né?</description><content:encoded>&lt;p&gt;Desculpe a minha &lt;em&gt;lerdeza&lt;/em&gt;. Eu deveria ter entendido o acordo tácito no momento em que você me convidou para &lt;strong&gt;assistir um filme na sua casa&lt;/strong&gt;. Não sei se eu era desligado demais ou se a culpa é do meu amor genuíno pelo cinema. Filmes me transportam para outro lugar e, &lt;strong&gt;porra&lt;/strong&gt;, você escolheu &lt;em&gt;Machete Mata&lt;/em&gt;. Aí complica.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não que eu gostasse mais do Danny Trejo do que de você. &lt;strong&gt;Não mesmo&lt;/strong&gt;&amp;hellip; Tenho o cérebro avariado, mas não a esse ponto. Mesmo que eu tivesse entendido &lt;em&gt;a real&lt;/em&gt;, como o clima poderia esquentar depois de ver o protagonista pular de um prédio usando a tripa de uma vítima como corda? &lt;strong&gt;Me explica!&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se era um teste, eu vou culpar o meu processamento lento por conta da sequência de falhas cometidas naquela noite. O erro fatal foi deixar você dar o play no DVD, &lt;em&gt;né&lt;/em&gt;? Anos depois, a ficha finalmente caiu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já estávamos naquele esquema de saídas esporádicas há semanas. Na minha cabeça, ver um filme na sua casa — o ato de assistir à película em si, e não &lt;em&gt;aquela outra coisa&lt;/em&gt; que qualquer pessoa no mundo entende — era um avanço. Um passo em direção a algo mais sério. Em minha defesa, sempre levei a ferro e fogo o clássico ensinamento materno de que eu não era &lt;em&gt;todo mundo&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E, pelo visto, não sou mesmo. Percebo isso agora. &lt;strong&gt;Tarde demais&lt;/strong&gt;, eu sei.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É uma pena que seja tarde. Foi estranho não poder me despedir. Espero que, em outra realidade, você consiga rir ao lembrar desse dia. Afinal, o que somos além de um amontoado de lembranças? Algumas que dão orgulho, outras que só trazem vergonha. Existe um momento, que chega sem avisar, em que o que era motivo de vexame se transforma em uma risada, nem que seja um sorriso daqueles de canto de boca.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para mim, esse dia chegou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;P.S.: &lt;em&gt;Machete Mata&lt;/em&gt; era bom demais para ser ignorado. &lt;strong&gt;Foi mal pelo vacilo&lt;/strong&gt;!&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;📷 &lt;em&gt;Foto de um casal assistindo a um filme no sofá. Créditos: &lt;a
href="https://www.pexels.com/pt-br/foto/casal-conjuges-sentado-amantes-6337032/"
target="_blank"
&gt;Tima Miroshnichenko&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/um-filme-na-sua-casa/featured.jpg"/></item><item><title>O Motor de Tramas</title><link>https://msmelo.blog/posts/motor-de-tramas/</link><pubDate>Sun, 08 Feb 2026 10:00:00 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/motor-de-tramas/</guid><description>É um ponto de partida. Ou um convite para o lugar nenhum.</description><content:encoded>&lt;p&gt;Já escrevi em algum lugar ou comentei com alguém, mas não lembro mais: O meu maior problema para escrever nunca foi a falta de ideias. Na verdade, sofro com o oposto, o excesso. Elas se atropelam, brigam por espaço e, às vezes, acabam travando a &lt;em&gt;porra&lt;/em&gt; toda.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foi num desses engarrafamentos mentais que decidi criar o &lt;strong&gt;Motor de Tramas&lt;/strong&gt;. Ele começou como mais um dos meus &amp;ldquo;mil projetos inúteis&amp;rdquo;, mas acabou se tornando algo que, honestamente, ficou bem legal. &lt;strong&gt;Mentira&lt;/strong&gt;, acho que foi apenas perda de tempo.&lt;/p&gt;
&lt;h2 class="relative group"&gt;Do que se trata esse tal Motor?
&lt;div id="do-que-se-trata-esse-tal-motor" class="anchor"&gt;&lt;/div&gt;
&lt;span
class="absolute top-0 w-6 transition-opacity opacity-0 -start-6 not-prose group-hover:opacity-100 select-none"&gt;
&lt;a class="group-hover:text-primary-300 dark:group-hover:text-neutral-700 !no-underline" href="#do-que-se-trata-esse-tal-motor" aria-label="Âncora"&gt;#&lt;/a&gt;
&lt;/span&gt;
&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;O &lt;strong&gt;Motor de Tramas&lt;/strong&gt; é uma aplicação web que funciona como um baralho de arquétipos e truques narrativos. Ele não escreve porra de nada por você (isso seria um tédio, e uma idea bem merda tipo colocar I.A. pra escrever suas coisas), ele causa &lt;strong&gt;fricção&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cada carta sorteada representa um elemento: uma voz, uma cicatriz, um tecido de mundo ou uma ruptura. A ideia é que você combine esses fragmentos para encontrar o núcleo de uma nova trama — seja lá o que &amp;ldquo;núcleo&amp;rdquo; signifique para o seu processo.&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;É um ponto de partida. Ou um convite para o lugar nenhum.&lt;/strong&gt; As combinações podem ser absurdas, bizarras ou assustadoramente precisas. O único objetivo real é despertar algo aí dentro da sua caixola. Ou fazer você procrastinar mais um pouco enquanto sorteia todas as cartas.&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;h2 class="relative group"&gt;Como usar (Sem manual de instruções)
&lt;div id="como-usar-sem-manual-de-instruções" class="anchor"&gt;&lt;/div&gt;
&lt;span
class="absolute top-0 w-6 transition-opacity opacity-0 -start-6 not-prose group-hover:opacity-100 select-none"&gt;
&lt;a class="group-hover:text-primary-300 dark:group-hover:text-neutral-700 !no-underline" href="#como-usar-sem-manual-de-instru%c3%a7%c3%b5es" aria-label="Âncora"&gt;#&lt;/a&gt;
&lt;/span&gt;
&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Não tem mistério. Basta acessar a página e deixar que o motor faça o trabalho sujo:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;👉 &lt;a
href="https://msmelo.blog/tramas"
target="_blank"
&gt;&lt;strong&gt;Experimentar o Motor de Tramas&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As cartas são carregadas e você pode embaralhá-las individualmente ou o set inteiro até sentir aquele &amp;ldquo;clique&amp;rdquo;. Ou melhor, até enjoar e nunca mais voltar.&lt;/p&gt;
&lt;h3 class="relative group"&gt;Um aviso sobre a arte
&lt;div id="um-aviso-sobre-a-arte" class="anchor"&gt;&lt;/div&gt;
&lt;span
class="absolute top-0 w-6 transition-opacity opacity-0 -start-6 not-prose group-hover:opacity-100 select-none"&gt;
&lt;a class="group-hover:text-primary-300 dark:group-hover:text-neutral-700 !no-underline" href="#um-aviso-sobre-a-arte" aria-label="Âncora"&gt;#&lt;/a&gt;
&lt;/span&gt;
&lt;/h3&gt;
&lt;p&gt;Um ponto de orgulho pessoal: &lt;strong&gt;todas as 104 lâminas foram desenhadas por mim, à mão, no nanquim.&lt;/strong&gt; Nenhuma IA é capaz de capturar essa sujeira e essa imperfeição do traço humano. E, sinceramente? Ver esse caos físico digitalizado é a melhor parte do projeto.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Qualquer dúvida, embaralhe novamente.&lt;/strong&gt; Se a dúvida persistir, guarde-a com carinho só para você; eu já estou atolado de outras coisas inúteis (e divertidas) para fazer.&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/motor-de-tramas/featured.jpg"/></item><item><title>Vigilância</title><link>https://msmelo.blog/posts/literoutubro/vigilancia/</link><pubDate>Thu, 22 Jan 2026 00:00:00 +0000</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/literoutubro/vigilancia/</guid><description>Nem o sorriso era meu mais</description><content:encoded>&lt;p&gt;Minha mãe me ensinou a sempre sorrir para as pessoas. Por mais que eu fosse introvertido, segundo ela, sorrir e acenar abririam portas. E de fato funcionou por algum tempo. Consegui contatos, relacionamentos estáveis e uma segurança financeira bem razoável em tempos onde até os banhos são contados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Inconscientemente, eu entro no prédio já sorrindo. Passo pela recepção, olho pra tela, certifico que estou na posição correta e as câmeras agora checam tudo. Se eu sou eu mesmo – tem dias que, confesso, nem sei – se estou apto a trabalhar, se estou triste, se vou performar bem no que tange incentivar pessoas a desistirem de seus direitos, sabe, só mais um dia comum de trabalho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sinto saudades de quando eu falava com alguém, mas agora só vejo telas e ouço bips. Sorrio, passo. Sorrio, volto. Sorrio, subo o elevador.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pareço um imbecil sorrindo pra ninguém, as câmeras não precisam do meu sorriso, por isso na quarta eu resolvi entrar com a cara neutra e, sem surpresas, a porta abriu. O elevador chegou. Passei meses gastando os meus músculos faciais para nada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tudo normal até o dia seguinte, quando antes de me posicionar para entrar no prédio, a impressora térmica deixou um aviso para mim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;ldquo;Notamos uma mudança em seu comportamento, favor retornar à sua conduta habitual.&amp;rdquo;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nem o sorriso era meu mais.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;📷 &lt;a
href="https://www.pexels.com/photo/close-up-shot-of-a-cctv-camera-7508683/"
target="_blank"
&gt;Foto de David Yu&lt;/a&gt;&lt;br&gt;
Descrição da imagem: Close-up detalhado de uma câmera de segurança CCTV, mostrando a lente circular e a estrutura metálica do equipamento de vigilância, capturando a presença constante e onipresente do monitoramento em espaços urbanos e corporativos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
&lt;figure&gt;
&lt;img class="my-0 rounded-md" loading="lazy" alt="Literoutubro 2024" src="https://i0.wp.com/lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2024/10/literoutubro_banner_2024.jpg?w=700&amp;amp;ssl=1"&gt;
&lt;/figure&gt;
&lt;a
href="https://toranja.substack.com/p/literoutubro-ano-03"
target="_blank"
&gt;Literoutubro 2024&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/literoutubro/vigilancia/featured.jpg"/></item><item><title>Depósito de Luzes Excedentes</title><link>https://msmelo.blog/posts/literoutubro/deposito-luzes/</link><pubDate>Sun, 12 Oct 2025 15:00:00 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/literoutubro/deposito-luzes/</guid><description>Alguns lugares guardam mais do que parecem.</description><content:encoded>&lt;p&gt;Meu relógio marcava 3:47, eu só não sabia há quanto tempo os ponteiros estavam parados.
&lt;em&gt;Filetes de luz atravessam minúsculos pontos que descem do teto criando cones de poeira brilhantes que dançam no ar.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tudo cheira a ferrugem e lembranças. Tateando nas sombras, com alguma dificuldade consigo observar &lt;strong&gt;containers enormes empilhados&lt;/strong&gt;. A distância que consigo percorrer não é muito grande, e é difícil com todos aqueles &lt;strong&gt;fios saindo de dentro de mim&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cada movimento meu ecoa pelo concreto frio. Há sussurros na parede — ou seriam vibrações? Um dos containers parece emitir uma frequência diferente dos demais. Eu empurro com dificuldade sua tampa, só um pouquinho e meus olhos cegam, meus braços formigam.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estou caído no chão, &lt;em&gt;coçando meus olhos, fungando o nariz&lt;/em&gt;. Da grande caixa aberta, um brilho (agora fraco) vaza de dentro, &lt;em&gt;como vagalumes morrendo&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu me aproximo — o que mais poderia fazer?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Lá dentro, diversos &lt;strong&gt;cristais luminosos&lt;/strong&gt;. Eu quebro um e vejo um pôr do sol no Farol da Barra. Outro tem &lt;em&gt;um beijo de despedida na Rodoviária em Águas Claras&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com a luz que eles liberam eu consigo ler a etiqueta fixada no grande caixote de metal enferrujado: &lt;strong&gt;Depósito de Luzes Excedentes&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É aqui que eles nos tiram tudo. &lt;strong&gt;Nos chupam até não sobrar mais nada.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;📸 &lt;em&gt;Ambiente industrial escuro, containers empilhados, feixes de luz atravessando poeira no ar e cristais brilhando fracamente no chão. Sensação de abandono, memória e extração de energia.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;
&lt;figure&gt;
&lt;img class="my-0 rounded-md" loading="lazy" alt="Literoutubro 2024" src="https://i0.wp.com/lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2024/10/literoutubro_banner_2024.jpg?w=700&amp;amp;ssl=1"&gt;
&lt;/figure&gt;
&lt;a
href="https://toranja.substack.com/p/literoutubro-ano-03"
target="_blank"
&gt;Literoutubro 2024&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/literoutubro/deposito-luzes/featured.png"/></item><item><title>Extinção</title><link>https://msmelo.blog/posts/literoutubro/extincao/</link><pubDate>Fri, 03 Oct 2025 15:30:00 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/literoutubro/extincao/</guid><description>&lt;p&gt;E se eu disser que você está a um movimento de se aliar ao &lt;strong&gt;grupo mais exclusivo da galáxia&lt;/strong&gt;?&lt;/p&gt;</description><content:encoded>&lt;p&gt;E se eu disser que você está a um movimento de se aliar ao &lt;strong&gt;grupo mais exclusivo da galáxia&lt;/strong&gt;?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já pensou em fazer parte de algo maior e &lt;em&gt;salvar o universo&lt;/em&gt; e tudo mais? E se eu lhe confidenciar que você pode &lt;strong&gt;lucrar&lt;/strong&gt; com isso? Agora sim, né?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este é um comunicado independente e exclusivo dos &lt;strong&gt;Visionários da Preservação&lt;/strong&gt;, faça parte desse clube e seja um novo &lt;em&gt;dilardário&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Jireh!&lt;/strong&gt; Com o intuito de preservar as &lt;em&gt;vidas que importam&lt;/em&gt;, você terá a missão de eliminar espécies menores – como os &lt;strong&gt;Flitorinos&lt;/strong&gt; que nem seus próprios pares o suportam. Miudinhos e irritantes, fáceis de amassar. Pronto, você já foi &lt;strong&gt;promovido&lt;/strong&gt;! Ao recrutar mais Visionários para a causa, cada extinção que eles realizarem &lt;strong&gt;conta para você também&lt;/strong&gt;!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É simples, é justo, é socioeconomicamente sustentável e o melhor: &lt;strong&gt;Lucrativo&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Kaleo&lt;/strong&gt;, de &lt;em&gt;Tenaris&lt;/em&gt;, iniciou com uma extinção básica em seu próprio planeta, e ao trazer alguns amigos para a causa, logo estava eliminando criaturas raras como os &lt;strong&gt;Durlags Luminescentes&lt;/strong&gt;. Kaleo vive agora sem iluminação natural, mas cercado de robôs e naves em sua &lt;em&gt;Mansão Opera&lt;/em&gt; com luzes radioativas nível dois (só!).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quanto mais Visionários você recruta para sua base, &lt;strong&gt;mais você avança&lt;/strong&gt;. No &lt;strong&gt;nível quarto&lt;/strong&gt; você já tem direito a presenciar uma extinção com os &lt;em&gt;Lavradores Maníacos Expatriados de Lurdus&lt;/em&gt;, sim, os mesmos que &lt;strong&gt;extinguiram seu próprio planeta&lt;/strong&gt;!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não perca tempo ponderando, o &lt;strong&gt;Kit de Extinção Iniciante&lt;/strong&gt; acompanha um lindo &lt;em&gt;sombreiro contra radiações&lt;/em&gt; nível um e &lt;strong&gt;créditos extras&lt;/strong&gt; para as primeiras extinções.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Nimbay, Visionário da Preservação!&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;📸 &lt;em&gt;Retrato futurista em preto e branco de pessoa usando máscara de proteção contra radiação, com elementos metálicos e design pós-apocalíptico. Os olhos intensos contrastam com o equipamento de sobrevivência, evocando um mundo onde a preservação da vida requer medidas extremas.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;
&lt;figure&gt;
&lt;img class="my-0 rounded-md" loading="lazy" alt="Literoutubro 2024" src="https://i0.wp.com/lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2024/10/literoutubro_banner_2024.jpg?w=700&amp;amp;ssl=1"&gt;
&lt;/figure&gt;
&lt;a
href="https://toranja.substack.com/p/literoutubro-ano-03"
target="_blank"
&gt;Literoutubro 2024&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/literoutubro/extincao/featured.jpg"/></item><item><title>Artifício</title><link>https://msmelo.blog/posts/literoutubro/artificio/</link><pubDate>Tue, 19 Nov 2024 00:00:00 +0000</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/literoutubro/artificio/</guid><description>O silêncio das palavras perfeitas</description><content:encoded>&lt;p&gt;Não havia sobras, nem um risco a mais. Uma vírgula, um ponto. Não existia espaço algum para
&lt;strong&gt;a sombra do mal-entendido&lt;/strong&gt;, para as falhas de outrora das comunicações humanas. Passado. Cada
palavra proferida saía dos dispositivos que filtravam os pensamentos e os vocalizava em uma
tradução perfeita.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como uma música que ecoava atrás da orelha, Douglas sentia os &lt;em&gt;vibratons&lt;/em&gt;, mas não sabia se era
aquilo mesmo o que queria falar. O que ele pensava era claro, às vezes até impuro, mas o que ele
ouvia não era o mesmo que a outra pessoa entendia. &lt;strong&gt;O tradutor cuidava disso&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Douglas era antigo o bastante para se lembrar dos tempos em que existiam segredos, hesitações. Quando
algumas palavras diziam mais de uma coisa, eram cheias de arestas. Havia beleza naquele
caos, apesar de serem &lt;em&gt;artifícios do Diabo&lt;/em&gt;, como bem traduziu o &lt;strong&gt;Império Regente Celestial&lt;/strong&gt;, pelo
menos ele se sentia vivo. Agora havia apenas o &lt;strong&gt;silêncio das palavras perfeitas&lt;/strong&gt;. Bom, até a porta
se abrir com seu superior o questionando:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Sonhando? Não é prudente.&lt;br&gt;
— Não, satisfeito com trabalho.&lt;br&gt;
— Algo incomoda?&lt;br&gt;
— Otimizar relatórios.&lt;br&gt;
— Eficiência!&lt;br&gt;
— Perfeição.&lt;br&gt;
— &lt;em&gt;Jireh&lt;/em&gt;!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Douglas fez o sinal sagrado e sorriu em resposta. Repetir palavras já ditas ainda que em sinal de
agradecimento de fé era &lt;strong&gt;um desperdício&lt;/strong&gt;. Em seu labirinto da mente tinha mandando seu chefe
para aquele lugar, que ele nem lembrava mais qual era, mas devia ser algo ruim, já que ninguém
aceitava ir pra lá.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;📷 &lt;a
href="https://www.pexels.com/pt-br/foto/dois-baloes-de-mensagem-branca-1111368/"
target="_blank"
&gt;Foto de Miguel Á. Padriñán&lt;/a&gt;&lt;br&gt;
Descrição: Dois balões de diálogo brancos num fundo rosa&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
&lt;figure&gt;
&lt;img class="my-0 rounded-md" loading="lazy" alt="Literoutubro 2024" src="https://i0.wp.com/lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2024/10/literoutubro_banner_2024.jpg?w=700&amp;amp;ssl=1"&gt;
&lt;/figure&gt;
&lt;a
href="https://toranja.substack.com/p/literoutubro-ano-03"
target="_blank"
&gt;Literoutubro 2024&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/literoutubro/artificio/featured-artificio.jpg"/></item><item><title>Caos</title><link>https://msmelo.blog/posts/literoutubro/caos/</link><pubDate>Wed, 13 Nov 2024 00:00:00 +0000</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/literoutubro/caos/</guid><description>O tempo ressoa com o eco das coisas mal feitas</description><content:encoded>&lt;p&gt;Dez giros, uma hora&lt;br&gt;
Na primeira, abri uma novidade&lt;br&gt;
E os prédios desmancharam em cinza&lt;br&gt;
Um novo ciclo anunciado&lt;br&gt;
O mar recuou outra vez&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao fechar a janela, ela estava lá&lt;br&gt;
a minha desordem&lt;br&gt;
Todo dia inicio algo &lt;strong&gt;novo&lt;/strong&gt;&lt;br&gt;
minha dor que &lt;strong&gt;nunca cessa&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nas ruas de aço onde casas se fecham&lt;br&gt;
Os postes brilham uma novidade&lt;br&gt;
Mais um tema se abre, uma distração&lt;br&gt;
Corpos andando sem sombra&lt;br&gt;
Um homem &lt;strong&gt;berra&lt;/strong&gt; de dentro do vídeo&lt;br&gt;
Mais uma aula que perdi&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O tempo ressoa com o eco das coisas mal feitas&lt;br&gt;
Todas inacabadas&lt;br&gt;
Elas se amontoam e se espelham&lt;br&gt;
Domingo à noite eu já não sei mais de nada&lt;br&gt;
O mundo sempre aceita o que recebe&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É desse vazio primitivo que ele nasce&lt;br&gt;
&lt;strong&gt;O Caos&lt;/strong&gt;&lt;br&gt;
Eu não,&lt;br&gt;
eu não aguento mais.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;📷 &lt;a
href="https://www.pexels.com/pt-br/foto/noite-sombrio-escuro-predios-16105723/"
target="_blank"
&gt;Foto de Faruk Tokluoğlu:&lt;/a&gt;
Descrição da imagem: Equipe de resgate trabalha intensamente durante uma operação noturna em local de destruição, com destroços, maquinário pesado, capacetes, lanternas e luzes de emergência, destacando esforços coordenados de busca e recuperação em ambiente caótico e poeirento&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
&lt;figure&gt;
&lt;img class="my-0 rounded-md" loading="lazy" alt="Literoutubro 2024" src="https://i0.wp.com/lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2024/10/literoutubro_banner_2024.jpg?w=700&amp;amp;ssl=1"&gt;
&lt;/figure&gt;
&lt;a
href="https://toranja.substack.com/p/literoutubro-ano-03"
target="_blank"
&gt;Literoutubro 2024&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/literoutubro/caos/featured.jpg"/></item><item><title>Heterocromia</title><link>https://msmelo.blog/posts/literoutubro/heterocromia/</link><pubDate>Sat, 26 Oct 2024 00:00:00 +0000</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/literoutubro/heterocromia/</guid><description>Memória de sangue</description><content:encoded>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;O celular me acorda&lt;/strong&gt; com a música daquela série que amava e agora me desconsola numa &lt;strong&gt;agonia preguiçosa&lt;/strong&gt;. As notificações me aguardam. Passo algumas para o lado, mas não a do aplicativo de fotos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Hoje, há um ano atrás.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fotos felizes, parece que foi há uma eternidade. A gente na rua sem medo do Sol. Olha só, um cachorro deitado na rua, adoro fotografar &lt;strong&gt;vira-latas&lt;/strong&gt;, &lt;strong&gt;pombos&lt;/strong&gt; e &lt;strong&gt;gatos ariscos&lt;/strong&gt;. E essa comida? Eu nem lembro mais o gosto, mas saiu bonita na foto, olha que maravilha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E depois uma sequência de fotos em casa, essas que me acompanham há semanas. Quase nenhuma é publicável, mas ajuda a me lembrar. Do trabalho, das plantas, eu só não me lembro desse &lt;strong&gt;gato com olhos um de cada cor&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Pesquisar. Heterocromia que fala.&lt;/strong&gt; Como iria me esquecer de algo tão incomum?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O dia passa na velocidade dos arrastos, vídeos curtos e dos esquecimentos. &lt;strong&gt;Os remédios&lt;/strong&gt;, os compromissos, os boletos. Tudo acumula, menos as lembranças.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A campainha toca, deve ser o zelador. Hora de botar o lixo pra fora. Pego dois sacos pesados, &lt;strong&gt;pingando sangue pela casa&lt;/strong&gt;. Abro a porta e meu bom dia é um murmúrio abafado. Será que ele me ouviu?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando Valmir vai embora, &lt;strong&gt;ele surge de lugar nenhum&lt;/strong&gt;: &lt;strong&gt;O gato heterocromático&lt;/strong&gt;. Tiro uma foto. A mesma foto. &lt;strong&gt;Ele mia alto&lt;/strong&gt;, mostrando suas presas, caminha até o portão e me olha mais uma vez. Está me chamando.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ah não, de novo não.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;📷 Foto de &lt;a
href="https://unsplash.com/pt-br/@juliakadel?utm_content=creditCopyText&amp;amp;utm_medium=referral&amp;amp;utm_source=unsplash/"
target="_blank"
&gt;Andrea Piacquadio&lt;/a&gt;&lt;br&gt;
Descrição da imagem: Uma pessoa segurando um gato branco com um olho azul e outro verde.&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/literoutubro/heterocromia/featured.jpg"/></item><item><title>Fator K</title><link>https://msmelo.blog/posts/literoutubro/fatork/</link><pubDate>Thu, 24 Oct 2024 00:00:00 +0000</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/literoutubro/fatork/</guid><description>Karin descobre o segredo do universo.</description><content:encoded>&lt;p&gt;Ela entrou na loja certa que o universo a acompanhava na &lt;em&gt;cocó&lt;/em&gt;, embora não soubesse o porquê. Apenas um vendedor, novato, a abordou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Posso ajudar?&lt;br&gt;
— Melhor, não — Karin respondeu, tentando não ser grossa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela só queria mel de &lt;em&gt;abelhas mandarinas&lt;/em&gt;, uma tarefa simples para qualquer pessoa, menos para ela. Assim que esticou o braço, antes mesmo de tocar no produto, tudo veio abaixo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O novato se desdobrava para segurar os produtos como quem tenta &lt;strong&gt;empilhar cartas num vendaval&lt;/strong&gt;. Não importava o lado que ele fosse, tudo se espatifava no chão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Isso acontece sempre que ela vem aqui, não se assuste — disse um dos antigos vendedores, tentando confortá-lo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Karin sorriu de canto, pegou o pote de mel que rolou em sua direção, ignorando a lixeira que rachou ao seu lado, vazando chorume, e os eletrodomésticos que faiscavam, iniciando um &lt;strong&gt;pequeno incêndio&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pagou em cédulas (&lt;em&gt;só ela ainda fazia isso&lt;/em&gt;) depois de não conseguir com crédito, débito, digital, sopro e sorriso na câmera.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao sair da loja – no meio de um temporal que surgiu do nada –, um homem com um sombrero colorido se aproximou:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Karin?&lt;br&gt;
— Talvez? Quem pergunta?&lt;br&gt;
— Escritório de Anomalias Caóticas. Você tem um talento.&lt;br&gt;
— Isso? — Karin apontou para o que restou da loja.&lt;br&gt;
— Sim, chamamos de &lt;strong&gt;Fator K&lt;/strong&gt;. Faz parte do equilíbrio universal.&lt;br&gt;
— E como faço isso parar?&lt;br&gt;
— Não, está doida? Se você parar, seria o fim de tudo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mundo ao seu redor parecia estar equilibrado numa bandeja, &lt;strong&gt;carregado por um palhaço bêbado num monociclo&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Viu.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;
&lt;figure&gt;
&lt;img class="my-0 rounded-md" loading="lazy" alt="Literoutubro 2024" src="https://i0.wp.com/lisandrogaertner.net/blog/wp-content/uploads/2024/10/literoutubro_banner_2024.jpg?w=700&amp;amp;ssl=1"&gt;
&lt;/figure&gt;
&lt;a
href="https://toranja.substack.com/p/literoutubro-ano-03"
target="_blank"
&gt;Literoutubro 2024&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;📷 &lt;a
href="https://www.pexels.com/pt-br/foto/mulher-sentado-jovem-novo-13871560/"
target="_blank"
&gt;Foto de Matheus Bertelli&lt;/a&gt;&lt;br&gt;
Descrição da imagem: Mulher jovem, branca, de cabelos castanhos claros segurando um jornal pegando fogo.&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/literoutubro/fatork/featured.png"/></item><item><title>Um Canal em Minha Janela.</title><link>https://msmelo.blog/posts/canal-janela/</link><pubDate>Fri, 14 Jun 2024 00:00:00 +0000</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/canal-janela/</guid><description>O que antes era diariamente ocupado por um número sem fim de carros e pessoas indo de um lado ao outro agora parece cena de um filme apocalíptico qualquer.</description><content:encoded>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Qual será a punição para o crime de ficar bisbilhotando a vida alheia da sua janela?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Será que é de fato um crime ou apenas falta de educação? Não tenho ideia e, por mais que não acreditem, não é de meu costume ficar parado na janela olhando a vida dos outros. Só que, de uns tempos para cá, tenho percebido que no primeiro prédio do outro lado da rua, no segundo andar, uma televisão passa quase o tempo todo ligada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Bom, talvez seja um crime menor e sem importância em tempos de isolamento social, afinal, vejam só, &lt;em&gt;o que mais temos de diferente para fazer?&lt;/em&gt; O meu raio de visão também não é lá muito bom, mesmo morando de frente para a rua, as janelas do meu apartamento são todas laterais e estou apenas no primeiro andar. Dá para ver a rua (que não está tão vazia como deveria) até uma das esquinas onde tem uma rotatória que, vez ou outra, traz &lt;strong&gt;fortes emoções&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E por fortes emoções entenda-se &lt;strong&gt;buzinas e xingamentos&lt;/strong&gt;. Só não tem briga de foice porque as pessoas estão evitando contato social. Isso ou talvez por ficar bem defronte um complexo policial.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que antes era diariamente ocupado por um número sem fim de carros e pessoas indo de um lado ao outro, criando uma poluição sonora que me proibia até de sentar aqui no quartinho dos fundos para escrever, agora parece cena de um &lt;strong&gt;filme apocalíptico qualquer&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vejo pessoas de máscaras indo e vindo com sacolas na mão. Algumas já estão se habituando tanto que começaram a investir em &lt;strong&gt;estilosas máscaras multicoloridas e estampadas&lt;/strong&gt;. Em meio a tudo isso, a televisão do segundo andar, do prédio branco grandão que fica na esquina entre a polícia e a rotatória, trabalha sem parar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando vou conferir da janela o movimento à noite, ela está lá. Não dá para ver o que está passando.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acordo às vezes de madrugada para aliviar a bexiga, pois &lt;strong&gt;velho idoso&lt;/strong&gt;, e lá está ela. Será que é tão antiga que não tem a função de desligar ou será que dentro daquele apartamento existe alguém tão ansioso que não consegue se desgrudar da TV?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;E se essa pessoa deixa a TV ligada na sala e vai para o quarto apenas para ver quem a está bisbilhotando?&lt;/em&gt; Se for uma armadilha, caí nela direitinho. Pior, e se for alguém da polícia?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Será que é crime ficar vendo a vida lá fora da janela?&lt;/strong&gt; Tomara que não, porque essa noite me interessei pela forma como a &lt;strong&gt;chuva martelava os galhos das árvores&lt;/strong&gt; e caía no asfalto feito chuveiro de primeiro andar em um prédio de vinte andares.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eram quatro da manhã, a chuva seguia forte. Ventava tanto que as janelas gemiam e um uivo estridente rasgava as paredes enquanto folhas eram levadas para passear rua abaixo, até onde meu campo visual não enxergava mais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a televisão continuava fazendo hora extra sem parar. Talvez seja hora de ligar para alguma autoridade e solicitar ajuda. A dúvida é se peço primeiro para mim ou para a pessoa do prédio da frente.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;📷 Foto de &lt;a
href="https://www.pexels.com/pt-br/foto/mulher-de-cabelos-pretos-abracando-o-travesseiro-cinza-perto-de-uma-janela-de-painel-de-vidro-920386/"
target="_blank"
&gt;Andrea Piacquadio&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;📅 Originalmente escrito em &lt;strong&gt;13 de Maio de 2020&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/canal-janela/featured.jpg"/></item><item><title>Saudade que bate bate, saudade que já bateu.</title><link>https://msmelo.blog/posts/saudade/</link><pubDate>Thu, 30 May 2024 00:00:00 +0000</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/saudade/</guid><description>Em algum lugar do passado, é tudo igual, nada se move.</description><content:encoded>&lt;p&gt;Resolvi dar um mergulho no passado. &lt;strong&gt;Foi horrível&lt;/strong&gt;. Lembrei de todas as coisas que dizia e pensava. Algumas embaraçosas, outras que deixaram aquela saudade triste que bate no fundo do peito. Rotinas que desapareceram sem avisar e se tornaram lembranças.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Às vezes, fico preso lá atrás, nas mesmas músicas que ouvia há já nem sei quanto tempo. Parece que elas me acompanham a vida inteira. Nem dá para dizer que juntaram poeira. Não dá tempo. Elas não somem; chegam, ficam, voltam.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em algum lugar do passado, é tudo igual, nada se move. Fica ali &lt;strong&gt;no canto da sala&lt;/strong&gt;, esperando você chegar. Como naqueles jogos onde os personagens só têm um lado, uma verdade. Você vai e volta quantas vezes quiser, e eles vão lhe dizer sempre a mesma coisa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Das lembranças que colhi nesse último mergulho, as que mais me intrigaram foram as de coisas que nem aconteceram. Algumas eu inventei, outras &lt;strong&gt;brotaram como mato&lt;/strong&gt; que aparece quando você joga sementes na terra e esquece por um tempo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As melhores sempre ficam. Outras são mais ariscas; só retornam com a combinação certa, uma que você só vai lembrar quando acontecer novamente. Um refrão antigo, um cheiro, uma batida, um arrepio que toma conta do seu corpo. Uma sensação, &lt;strong&gt;uma visagem&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Saudade é boa quando fica lá&lt;/strong&gt;. Se voltou e ficou, é hora de colocar uma vassoura atrás da porta. Deixar ‘escapar’ que vai precisar ‘&lt;em&gt;ir ali&lt;/em&gt;’. Inventar que lembrou de algo tão urgente que vai precisar sair já, sem ter nem tempo de trocar de roupa.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;📷 Foto por &lt;a
href="https://unsplash.com/pt-br/fotografias/mulher-vestindo-lenco-vermelho-e-preto-e162aG538_k"
target="_blank"
&gt;Foto de Harold Wijnholds na Unsplash&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;📅 Originalmente escrito em 13 de Agosto de 2023&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/saudade/featured.jpg"/></item><item><title>Será que é ódio o que nos falta?</title><link>https://msmelo.blog/posts/homem-diminui-cidade-cresce/</link><pubDate>Thu, 02 May 2024 11:55:59 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/homem-diminui-cidade-cresce/</guid><description>O Homem diminui à medida que a cidade cresce</description><content:encoded>&lt;p&gt;Eu tinha sempre duas ou três redações decoradas para usar quando precisasse. Era um
&lt;em&gt;Ás&lt;/em&gt; na manga para qualquer aperto em provas ou concursos públicos. A estrutura variava entre quatro ou cinco parágrafos com cinco ou seis linhas cada. Mais que o conteúdo, o texto final precisava ter &lt;strong&gt;forma&lt;/strong&gt; e ocupar um espaço mais ou menos similar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pouco depois do alvoroço do &lt;strong&gt;bug do milênio&lt;/strong&gt;, no qual apenas assistimos os estadunidenses estocando água e alimentos feito loucos, eu gostava de falar sobre &lt;strong&gt;conexões&lt;/strong&gt;. A forma como a internet cortou distâncias e aproximou as pessoas. Só que essa aproximação era apenas simbólica, já que, cada vez mais, estávamos nos isolando um dos outros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Naquela época, ainda jovem e com algumas ideias de revolta na mente, esse era um tema que constantemente utilizava em minhas redações. “&lt;em&gt;O homem diminui a medida que a cidade cresce&lt;/em&gt;”, gostava de colocar essa frase em meus textos. Tempos antigos, em que não me preocupava em utilizar uma linguagem mais neutra e abrangente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os anos passaram e alguns clichês se tornaram parte de minha história. Coisas que ouvia e achava apenas baboseira se tornaram verdades universais. Sim, &lt;strong&gt;o tempo passa mais depressa quando ficamos mais velhos&lt;/strong&gt; e, pasmem, muitas lembranças de décadas atrás parece que aconteceram ontem. Algumas &lt;strong&gt;certezas precisam de tempo de maturação&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Chegamos ao futuro que temia e utilizava como exemplo de redação. Estamos todos isolados dentro de nós mesmos. Cada um no seu canto, no seu perfil, preso nas suas verdades. Diminuímos, as cidades cresceram e os mais velhos estão todos amargurados. Talvez &lt;strong&gt;nos falte ódio&lt;/strong&gt;, para nos rebelar, ou talvez saber demais seja mesmo uma maldição.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;📷 Foto por &lt;a
href="https://www.pexels.com/photo/person-holding-a-playing-car-3187173/"
target="_blank"
&gt;Photo by Nick Rtr no Pexels&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;📅 Originalmente escrito em 18 de Setembro de 2020&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/homem-diminui-cidade-cresce/featured.jpg"/></item><item><title>Ninguém Sabe</title><link>https://msmelo.blog/posts/ninguem-sabe/</link><pubDate>Sat, 27 Apr 2024 11:55:59 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/ninguem-sabe/</guid><description>A jornada dentro do deserto da sua mente estava prestes a começar.</description><content:encoded>&lt;p&gt;Dava trabalho de engolir e sempre grudava na garganta, mas tinha gosto de ouro. &lt;strong&gt;Todos os dias eram iguais&lt;/strong&gt;, as mesmas regras para seguir. O porquê de ter que tomar aquelas pílulas ninguém sabia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“&lt;em&gt;O que vocês estão fazendo comigo&lt;/em&gt;?”. Éden perguntou antes de passar pelo primeiro scanner.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sempre se sentia tolo quando os indagava, já que ninguém respondia. Acreditar que eles também não sabiam era o único pensamento que lhe trazia paz e um dos poucos que ainda lhe restavam.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Luzes vermelhas se acendiam, mas ele nunca era barrado. Já houveram dias em que queria saber se existiam luzes de outras cores. Nunca dava tempo de parar e esperar pelos outros atrás dele e descobrir. Era sempre &lt;em&gt;faça isso&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;faça aquilo&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vinte e seis passos era a distância até &lt;strong&gt;a sala escura&lt;/strong&gt;. Antes de passar pelo segundo scanner, um compartimento se abria na parede de onde pegava as pílulas para o dia seguinte. Um aviso sonoro lhe indicava onde tinha que se sentar. Assento número trinta e sete. &lt;strong&gt;Outra vez&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Éden encaixou o &lt;strong&gt;vórtex&lt;/strong&gt; principal e fechou os olhos sem nenhuma esperança de que algo diferente fosse acontecer. Acompanhava o ritmo da sua respiração para tentar se acalmar. Pra dentro, e pra fora. Pra dentro&amp;hellip; Pra fora. &lt;strong&gt;A jornada dentro do deserto da sua mente estava prestes a começar&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Era sempre a mesma visão, estava à deriva num oceano lotado de botes salva-vidas abandonados ao sol. Aos poucos ia se desfazendo, não sem antes olhar para cima.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“&lt;em&gt;Obrigado pelo presente&lt;/em&gt;!”. Gritou, para quem quisesse ouvir (ninguém queria).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acima dele, o céu sorria. Se existia algo melhor do que aquilo, &lt;strong&gt;nem ele nem ninguém sabia&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;👀 Este micro-conto foi baseado numa música que adoro: &lt;a
href="https://www.youtube.com/watch?v=s88r_q7oufE"
target="_blank"
&gt;No One Knows do Queens of The Stone Age&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;📷 Foto por &lt;a
href="https://www.pexels.com/photo/close-up-photo-of-man-holding-a-portable-light-8680106/"
target="_blank"
&gt;Cottonbro Studio no Pexels&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;📅 Originalmente escrito em 1 de Julho de 2020&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/ninguem-sabe/featured.jpg"/></item><item><title>Será que você se lembra daquele dia que nos vimos pela última vez?</title><link>https://msmelo.blog/posts/sera-que-vc-lembra/</link><pubDate>Sun, 21 Apr 2024 01:55:59 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/sera-que-vc-lembra/</guid><description>O seu sorriso era o mesmo, os seus olhos castanhos brilharam naquela tarde e eu, finalmente, sorri de volta.</description><content:encoded>&lt;p&gt;eu deixei de olhar para trás por sua causa.
não num sentido poético ou metafórico como quem diz que quer evitar o passado, não é isso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;é literal mesmo, eu parei de passar pelas pessoas na rua e — depois daqueles um ou dois segundos — virar a cabeça para trás desde aquele dia que a gente se viu pela última vez.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;eu quis ter certeza que era você que me media de um lado ao outro dos meus ombros magros e fracos e abria um sorriso para morrer em minha indiferença, eu me culpo por ter sido tão imbecil, mas saiba que por trás de alguns silêncios arredios, mora uma admiração secreta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;de quem não consegue expor seus sentimentos, de quem fala pra dentro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;eu lembro com uma pontada de nostalgia, aquele dia que viramos para trás, ao mesmo tempo, e nossos olhares se encontraram.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;o seu sorriso era o mesmo, &lt;strong&gt;os seus olhos castanhos brilharam naquela tarde e eu, finalmente, sorri de volta&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;eu nunca me esqueci, &lt;strong&gt;será que você também se lembra&lt;/strong&gt;?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;desde esse dia, o último, eu parei de olhar para trás.
&lt;strong&gt;não quero mais ser arrebatado por esse sentimento que fica preso e não vai mais sair&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu não quero despertar sonhos que não vou viver, &lt;strong&gt;nunca mais&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;📆 Originalmente escrito no dia &lt;strong&gt;05 de Fevereiro de 2023&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/sera-que-vc-lembra/featured.jpg"/></item><item><title>Fica para a próxima</title><link>https://msmelo.blog/posts/fica-pra-proxima/</link><pubDate>Sat, 20 Apr 2024 11:55:59 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/fica-pra-proxima/</guid><description>Tem dias que lembro daquela noite e me arrependo de tudo o que deveria ter feito e não fiz, tem dias — quando fico um pouco alto — que apenas dou risada.</description><content:encoded>&lt;p&gt;Morro de saudade dos seus olhos azuis.
&amp;ldquo;&lt;em&gt;São, cinza&lt;/em&gt;&amp;rdquo;, você sempre respondia, &amp;ldquo;&lt;em&gt;olho de gente velha&lt;/em&gt;&amp;rdquo;.
Eeu nunca sabia se era tristeza ou alguma daquelas (suas) brincadeiras de fingir estar pra baixo, quando você sorria de canto de boca.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tem dias que lembro daquela noite e me arrependo de tudo o que deveria ter feito e não fiz, tem dias — &lt;strong&gt;quando fico um pouco alto&lt;/strong&gt; — que apenas dou risada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sabe o mais engraçado? Quando a notícia chegou eu não chorei de imediato. Fiquei apenas surpreso.
Tá, um pouco em choque também.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E quem não ficaria sabendo assim… Na lata?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A notícia chegou a mim sem nenhum tipo de filtro ou preparo.
Todo mundo achava que a gente só se conhecia de vista, de se bater por aí pelas ruas tortas de Salvador.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Será que mais alguém sabia da gente?
Para quem você contou?
Para quem foi?
Duvido que mais ninguém saiba das nossas noites e madrugadas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ficou mesmo só entre a gente aquele convite que você me fez?
Aquele que eu só descobri que era um encontro, ou &lt;em&gt;date&lt;/em&gt; como falam, depois que você me beijou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Juro que achei que você queria mesmo saber de *&lt;em&gt;blogs&lt;/em&gt;.
Sabe, eu sempre fui assim.
&lt;strong&gt;Devagar&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mais foda é que agora eu penso o quanto a gente poderia ter se divertido nessa vida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Fica para uma próxima&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ainda estou por aqui, vagando por esse mundo com tantos desencontros e tantas surpresas.
Sem você, é verdade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O pior é que não contei pra ninguém ainda a falta que você me faz.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;📆 Originalmente escrito no dia &lt;strong&gt;04 de Agosto de 2023&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;📷 &lt;a
href="https://www.pexels.com/photo/pensive-woman-pointing-index-finger-at-camera-4346014/"
target="_blank"
&gt;Foto de Maycon Marmo no Pexels&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/fica-pra-proxima/featured.jpg"/></item><item><title>Remorto</title><link>https://msmelo.blog/posts/remorto/</link><pubDate>Sat, 30 Mar 2024 11:55:59 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/remorto/</guid><description>Pior é ficar preso no mesmo ciclo sem fim.</description><content:encoded>&lt;p&gt;Daqui de dentro eu vejo tudo o que vocês ouvem. Não tem nenhum filtro, é &lt;strong&gt;open source&lt;/strong&gt;. Navego pelos códigos mal escritos das tuas costas até chegar no centro do problema. É o que você acha que vê, mas não enxergou. O que é e você não sabe ainda e também tudo o que você acha que entendeu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se fosse fácil de explicar não precisaríamos de tantos &lt;em&gt;frameworks&lt;/em&gt; e tampouco usar palavras em inglês. Às vezes, confesso, faço isso apenas para não falar a real. Não dizer &lt;em&gt;a qual é de mesma&lt;/em&gt;. Se fosse estranho, não seria permitido. &lt;strong&gt;Ser feliz tem dessas coisas&lt;/strong&gt;. A gente acha que sabe o que é, mas só quando acontece faz sentido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desperto alegre apenas para chorar as novidades. A assistente virtual fala com aquela sua voz monótona e sem emoção tudo o que eu preciso, mas no fundo no fundo preferia não saber. Só quando o dia já se despediu da noite, quando o chuveiro cospe aquela água gelada nos meus ombros é que descubro a verdade. O erro que estava escondido desde a última atualização. Num &lt;em&gt;loop infinito&lt;/em&gt; eu coloco um atalho, um escape. É errado, é feio, mas &lt;strong&gt;pior é ficar preso no mesmo ciclo sem fim&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O dia seguinte vai começar melhor, vai ser diferente. &lt;strong&gt;Isso é um desejo, não é a realidade&lt;/strong&gt;. Todo o tempo que finjo que me engano é o que chamo de descanso. A mente recarrega, mas o corpo não. Quando um novo dia surge, lá está o meu calabouço: Uma cadeira, um teclado, duas telas e uma garrafa de água (quente). Digito meus segredos e tudo se abre:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um novo dia, os mesmos erros, os mesmos problemas, as mesmas reuniões.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;📆 Originalmente escrito no dia &lt;strong&gt;21 de Março de 2021&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;📷 &lt;a
href="https://www.pexels.com/pt-br/foto/oculos-black-farmed-em-frente-ao-computador-laptop-577585/?utm_content=attributionCopyText&amp;amp;utm_medium=referral&amp;amp;utm_source=pexels"
target="_blank"
&gt;Foto de Kevin Ku no Pexels&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/remorto/featured.jpg"/></item><item><title>A casa ao lado</title><link>https://msmelo.blog/posts/um-sonho-ruim/</link><pubDate>Sun, 03 Mar 2024 03:55:59 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/um-sonho-ruim/</guid><description>Um sonho (ruim)</description><content:encoded>&lt;p&gt;Outro dia quase acordei antes da hora, mas não consegui. É que ainda estava dentro de um sonho. E digo isso porque ela estava lá, rindo de mim enquanto eu acompanhava os seus cabelos arrastando pelo chão, molhando tudo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu &lt;strong&gt;sabia que era um sonho&lt;/strong&gt; porque a segui até a casa ao lado. Desperto, eu jamais faria isso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O portão enferrujado estava entreaberto, o rastro de lama seguia da sala para a cozinha. Da cozinha, que cheirava a mofo e pão velho, para o quintal, um amontado de lixo e capim valente que rasgava as paredes frias e manchadas. Ainda que fosse do lado de fora, eu já não enxergava quase nada. Nessa hora eu fiquei mais tranquilo, afinal, &lt;strong&gt;se fosse de verdade, eu já teria corrido&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Era apenas um sonho sim, &lt;em&gt;daqueles ruins&lt;/em&gt;. Que nos assustam a fim de nos alertar de algo que está à nossa espreita, arrepiando a nuca. Dessa força invisível que nos aperta o coração e &lt;strong&gt;chupa&lt;/strong&gt; todo ar de dentro da gente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando a procurei, ela não estava mais no quintal. Não dei mais nenhum passo. Olhei para cima para contemplar a &lt;strong&gt;lua vermelha&lt;/strong&gt; que crescia no céu limpo e sem estrelas. E foi aí que veio aquele bafo frio. Foi quando senti aquelas unhas podres me cortando o ombro. Desceram o braço inteirinho, rangendo com aquela risada fedida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não podia olhar para trás, eu &lt;strong&gt;sabia dentro de mim&lt;/strong&gt;. Se eu a visse, seria o fim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pensei até em acordar, já que &lt;strong&gt;era apenas um pesadelo tardio&lt;/strong&gt;, daqueles que aguardam até bem cedinho, poucos segundos antes do despertador começar a gritar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Era um sonho sim, eu tinha certeza. Só não sei porque doía tanto minha carne rasgando até o osso nu.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;📅 Originalmente escrito no dia &lt;strong&gt;8 de Outubro de 2022&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;👀 Esse conto escrevi depois de ler o livro de contos da escritora argentina Mariana Enriquez chamado &amp;ldquo;&lt;em&gt;As coisas que perdemos no fogo&lt;/em&gt;&amp;rdquo;. Recomendo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;📷 Foto de &lt;a
href="https://www.pexels.com/@eren-ozdemir-80607608/"
target="_blank"
&gt;Eren Özdemir&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/um-sonho-ruim/featured.jpeg"/></item><item><title>Liberando espaço na memória</title><link>https://msmelo.blog/posts/liberando-espaco-memoria/</link><pubDate>Fri, 01 Mar 2024 03:55:59 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/liberando-espaco-memoria/</guid><description>Lembraças malditas em abas que se acumulam.</description><content:encoded>&lt;p&gt;Um navegador web com dezenas de abas abertas podia ser apenas um &lt;em&gt;software&lt;/em&gt; executando em um computador qualquer, mas não. Apesar de ser banal, cotidiano, não novidade pra mais ninguém, &lt;strong&gt;esse sou eu&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sobrecarregado, sem forças para mais nada. Quando uma aba é fechada, ao invés de aproveitar a leveza mais duas ou dez aparecem em seu lugar. Algumas eu nem sei como foram parar ali, elas simplesmente surgem. E se acumulam. &lt;strong&gt;Eu todo&lt;/strong&gt;. Podia ser você também. Não sei se agora, mas em algum momento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tudo se amontoa dentro de mim, o peito pesa e lá está novamente aquele mar de informação e de coisas inúteis. Algumas pesquisas se tornam o nosso pior pesadelo, elas surgem dentro de outras que ainda vamos abrir. Em forma de &lt;strong&gt;lembrança maldita&lt;/strong&gt;. Para nos atormentar relembrando de coisas que a gente achou que precisava, mas no fundo não precisamos de quase nada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Estou assim esses dias&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;E você&lt;/em&gt;? Tá com a memória livre ou também está sobrecarregado?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se tudo parecer lento, se o ano que sempre passou rápido está, dessa vez, se arrastando, &lt;strong&gt;se hoje não for quarta-feira, então eu sou você&lt;/strong&gt;. Nesse instante. Somente nessa situação. Para todos os outros assuntos e circustâncias, cada um é um só. E acredite, é melhor que seja assim.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;📅 Escrito originalmente no dia &lt;strong&gt;2 de junho de 2020&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;📷 Foto de &lt;a
href="https://unsplash.com/photos/blue-orange-green-and-yellow-plastic-toy-ZxRHtPacwUY"
target="_blank"
&gt;Jackson Simmer&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/liberando-espaco-memoria/featured.jpg"/></item><item><title>Escrever todos os dias</title><link>https://msmelo.blog/posts/escrever-todos-dias/</link><pubDate>Mon, 26 Feb 2024 03:55:59 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/escrever-todos-dias/</guid><description>Era uma vez uma pessoa que não conseguia escrever um novo texto.</description><content:encoded>&lt;p&gt;Poderia escrever todos os dias se quisesse, mas nunca se sentia capaz. A procura por alguma ideia nova, que fizesse as palavras correrem soltas na página em branco à sua frente, algumas vezes, era exaustiva.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Salvar para depois era apenas um local onde coisas interessantes caiam no esquecimento&lt;/strong&gt;. Dificilmente resgatava algo que tinha anotado em sua lista de ideias. O problema (de fato) não era sobre o quê escrever.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que realmente o esgotava era decidir como iniciar um texto. Perdia energia pensando em como encerrá-lo também, mas nada comparado a decidir qual seria a &lt;strong&gt;primeira frase&lt;/strong&gt;. Aquela que faria alguém parar três ou cinco minutos de seu tempo para ler algo seu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As palavras continuavam entaladas. Tentou colocar uma &lt;em&gt;playlist&lt;/em&gt; de música instrumental para poder se concentrar. Conseguiu foco e começou a escrever, mas sabia que tudo aquilo iria parar na área de rascunhos e, provavelmente, ficaria lá para sempre.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Alguns rascunhos simplesmente não pareciam bons o bastante para ganhar vida. A ideia não era original, a forma que escrevia e escolhia as palavras estava longe da ideal e não tinha pensado em uma frase de impacto que fizesse alguém chegar até a última linha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Até meditação tentou, achando que, enquanto aprendia a ouvir suas respirações e o mundo ao redor, algo pronto iria pousar na sua &lt;em&gt;caixola&lt;/em&gt;. Quando alguma coisa parecia fazer sentido, as palavras que digitava não construíam uma ponte que tornassem seus pensamentos coerentes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Horas se tornaram dias e antes que os dias se juntassem para virar uma semana, uma ideia surgiu. Não era original, nem parecia boa o bastante, mas pelo menos poderia escrever algo até o fim para aplacar sua angústia e ansiedade por publicar um texto novo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A página em branco à sua frente começou a ganhar algumas palavras. As palavras formaram frases. As frases, mesmo que não muito bem escritas, construíram um pequeno conto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As incontáveis vezes que tinha editado o texto denunciavam que, talvez, ele não fosse bom o bastante para se tornar público. Só moveu o ponteiro do mouse e clicou em publicar depois que decidiu que &lt;strong&gt;iria iniciar e encerrar o seu conto com a mesma frase&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dessa forma nem precisaria digitar a última linha. Apenas foi lá, copiou e colou:&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;Poderia escrever todos os dias se quisesse, mas nunca se sentia capaz.&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;📅 Escrito originalmente no dia &lt;strong&gt;16 de maio de 2020&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;📷 Foto de &lt;a
href="https://unsplash.com/photos/person-in-black-adidas-cap-sitting-on-bench-writing-on-notebook-XrSzacdYbtQ"
target="_blank"
&gt;Brad Neathery&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/escrever-todos-dias/featured.jpg"/></item><item><title>Um dia eu termino, hoje não</title><link>https://msmelo.blog/posts/um-dia-termino/</link><pubDate>Mon, 19 Feb 2024 03:55:59 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/um-dia-termino/</guid><description>Meus contos inacabados nunca darão um livro.</description><content:encoded>&lt;p&gt;O quão bom seria apenas sentar e escrever? Sem julgamentos, &lt;strong&gt;ninguém olhando&lt;/strong&gt;. Com expectativas baixas, ou melhor, rasteiras. Lá no subsolo. Pintar com letras e frases uma página que estava em branco. Chegar até o fim da tela do meu monitor e não voltar atrás.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um dos maiores problemas que tenho ao escrever é concluir histórias. &lt;strong&gt;Ideias não me faltam&lt;/strong&gt;, elas aparecem todos os dias. Às vezes na cozinha, outras quando acordo. Tem dias que meus sonhos são tão bons que eu gravo um áudio. &lt;strong&gt;Eles são maravilhosos até eu acordar, lavar o rosto e ouví-los&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho vários contos e &lt;em&gt;noveletas&lt;/em&gt; abertos em meu &lt;em&gt;Google Drive&lt;/em&gt;. Histórias sobre carros amaldiçoados e cachorros bem alimentados. &lt;strong&gt;Uma saga de um caranguejo tentando voltar ao mangue que ele chama de lar ao lado de um siri inconveniente&lt;/strong&gt;. Aventuras espaciais em galáxias inalcançáveis apenas em distância física. No final, todas elas são iguais. Inacabadas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E não tem para onde correr, escrevemos sobre o que somos. Eu sou aquela pessoa que se empolga fácil e abraça um milhão de ideias. Tomo todas para mim e não levo adiante. Não concluo. &lt;strong&gt;Minha vida é uma eterna espiral de pendências&lt;/strong&gt;. É muito poderia ser, quem sabe ou um dia eu termino.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por mais doido que possa parecer, escrever tem sido a única atividade constante nesse Março de 2020 que nunca acaba. Sei lá, tem pouca gente olhando ou julgando. &lt;strong&gt;Não é como se todos aqui estivessem no mesmo barco&lt;/strong&gt;, mas estamos na mesma maré e as ondas são mais tranquilas e constantes do que na vida real. E mesmo sem prancha, eu sei pegar jacaré.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E sabe o melhor? Acabei de ter mais uma ideia. Agora vai! (&lt;em&gt;Spoiler: não vai&lt;/em&gt;).&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;👀 Texto originalmente escrito no dia 20 de Março de 2020, quando tudo parecia sem saída e o mundo se fechava dentro de minha casa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;📷 Foto de &lt;a
href="https://www.pexels.com/pt-br/foto/worms-eye-view-of-spiral-stained-glass-decors-through-the-roof-161154/?utm_content=attributionCopyText&amp;amp;utm_medium=referral&amp;amp;utm_source=pexels"
target="_blank"
&gt;Pixabay no Pexels&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/um-dia-termino/featured.jpg"/></item><item><title>Espero que você esteja bem</title><link>https://msmelo.blog/posts/espero-que-voce-esteja-bem/</link><pubDate>Wed, 14 Feb 2024 03:55:59 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/espero-que-voce-esteja-bem/</guid><description>Uma despedida em forma de carta.</description><content:encoded>&lt;p&gt;A última mensagem que te enviei ainda está aqui, sua foto também. Nela você está sorrindo, como sempre.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Guardo todas as lembranças que tive contigo, nossa primeira conversa no início do século, e todas as seguintes até o dia que a gente se encontrou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sabia que eu &lt;strong&gt;fui no seu perfil saber suas bandas favoritas antes de te buscar&lt;/strong&gt;? Agora toda vez que tocar &lt;strong&gt;Weezer&lt;/strong&gt; eu vou me lembrar de você. É pesado, mas tento focar naquele dia que você entrou no carro e veio cantando, alegre e surpresa por gostarmos das mesmas músicas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aquele dia foi estranho para mim também, fomos mesmo feitos para sermos melhores amigos. E isso não me envergonha e também não me deixou pra baixo, muito pelo contrário, &lt;strong&gt;as coisas ficaram melhores&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nossas confisões, nossos arrependimentos e até os momentos de sucesso, cada vez mais raros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por isso, sempre que vejo &lt;strong&gt;a última mensagem que você nunca leu&lt;/strong&gt;, me parte o coração.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vou sentir sua falta. &lt;strong&gt;Pra caralho&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Espero que o pouco que dividimos juntos aqui tenha sido o suficiente pra você. Para mim, não importa mais. Fico com sua foto, não a que os jornais escolheram, mas &lt;strong&gt;as que você escolheu&lt;/strong&gt;. Fico com seu sorriso, com suas mensagens, com tudo o que você deixou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Espero &lt;strong&gt;mesmo&lt;/strong&gt; que você esteja bem.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;👀 Perdi uma amiga de supetão em 2023. A última mensagem que deixei para ela ainda está lá no telegram &amp;ldquo;&lt;em&gt;Espero que você esteja bem&lt;/em&gt;&amp;rdquo;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;📷 Foto de &lt;a
href="https://www.pexels.com/pt-br/foto/minimalismo-minimalista-polaroid-viagem-4340786/"
target="_blank"
&gt;Taryn Elliott&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/espero-que-voce-esteja-bem/featured.jpg"/></item><item><title>Revisões Mentais</title><link>https://msmelo.blog/posts/revisoes-mentais/</link><pubDate>Mon, 05 Feb 2024 11:55:59 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/revisoes-mentais/</guid><description>Sobre braços curtos e botões que mudam de lugar.</description><content:encoded>&lt;p&gt;Raiva, ódio, um choro preso. Uma alegria distante, uma saudade. Um bom dia falso, um sorriso mentiroso. Um sol que aparece tímido e tenta te enganar, mas se você olhar bem ali, &lt;strong&gt;entre os dois prédios coloridos&lt;/strong&gt;, encontrará nuvens carregadas em cinza escuro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É um filme de terror, daqueles baratos. Você fica de prontidão, mas não adianta. Um gato pode saltar de &lt;strong&gt;lugar nenhum&lt;/strong&gt; a qualquer momento. Ao abrir a gaveta você encontrará apenas vermes se espalhando.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando estiver sozinho no corredor, alguém estará (escondido) logo atrás de você. &lt;strong&gt;Uma visagem&lt;/strong&gt;, um relance por cima do seu ombro esquerdo. Um arrepio que levanta cada fio de cabelo dos seus braços e depois queima seu estômago. Por fim, te congela.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Você fecha a porta. Abre. Fecha novamente. Desce até o carro, aperta o botão errado para destravar o alarme algumas vezes. Aperta os olhos, os desenhos são todos iguais. &lt;strong&gt;O braço fica curto&lt;/strong&gt;. Senta no banco e se pergunta quem mudou ele de lugar. &lt;strong&gt;Ninguém&lt;/strong&gt;. Olha pra trás um par de vezes. Você está mesmo sozinho?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A previsão do tempo estimada de deslocamento estava errada (nenhuma surpresa). O que fazer a respeito destes três minutos e doze segundos que foram embora e não voltarão nunca mais?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Algo deve estar errado, você quer ter certeza disso. &lt;strong&gt;Quer ver os erros, as falhas ou a má sorte que lhe espreita&lt;/strong&gt;. O sol abriu, o guarda-chuvas pode ficar no carro. Agora é só apertar o botão do meio. Ou seria o primeiro? Lá se vão mais vinte segundos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tudo parece estar no lugar, e &lt;strong&gt;é isso que te corrói&lt;/strong&gt;, que te mata aos poucos. No final, só lhe resta uma pergunta:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Será que tranquei a porta de casa?&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;👀 Me descobri com hipermetropia durante a pandemia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;✍🏽 Esse texto foi escrito originalmente no dia &lt;strong&gt;21 de Março de 2021&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/revisoes-mentais/featured.jpg"/></item><item><title>Quando Ninguém está Olhando</title><link>https://msmelo.blog/posts/quando-ninguem-esta-olhando/</link><pubDate>Thu, 01 Feb 2024 05:55:59 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/quando-ninguem-esta-olhando/</guid><description>Um texto finalizado nada mais é do que um ato fortuito de coragem (ou imprudência) cometido quando ninguém está olhando.</description><content:encoded>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Quando ninguém está olhando&lt;/strong&gt; é mais fácil colocar as palavras lado a lado. Sem se preocupar com as frases que vão se formar e nem com seus significados. Sem pesquisar por sinônimos, sem sentar o dedo no backspace até a página ficar em branco novamente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Quando ninguém está olhando&lt;/strong&gt; dá pra ignorar os sublinhados coloridos que vão brotando, denunciando o quanto você digita sem pensar e o quanto ainda precisa aprender. Sem se preocupar onde colocar a vírgula ou se ela está separando, com um muro de mil metros, o sujeito do verbo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Quando ninguém está olhando&lt;/strong&gt; dá para fingir que está tudo certo e que as palavras, as vírgulas, os verbos estão todos em seus lugares marcados. E se nada estiver correto basta criar uma narrativa particular na qual tudo foi feito de caso pensado. Os erros, as falhas, as frases sem sentido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Quando ninguém está olhando&lt;/strong&gt; dá para repetir uma mesma frase várias vezes, em todos os parágrafos e também no título. E dá ainda para colocar, bem próximo do fim, uma grande mentira. De preferência numa frase solta como se fosse uma importante citação.&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Escrevo sem me importar com o que os outros vão pensar&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;Quem quiser que acredite e minta antes que alguém abra a porta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um texto finalizado nada mais é do que um ato fortuito de coragem (ou imprudência) cometido &lt;strong&gt;quando ninguém está olhando&lt;/strong&gt;. Uma homenagem póstuma a todas as palavras substituídas ou apagadas.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;👀 &lt;em&gt;Publicado originalmente no dia 14/02/2021&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;📷 Foto de Adrienn: &lt;a
href="https://www.pexels.com/pt-br/foto/foto-de-mulher-atras-da-porta-1459558/"
target="_blank"
&gt;https://www.pexels.com/pt-br/foto/foto-de-mulher-atras-da-porta-1459558/&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/quando-ninguem-esta-olhando/featured.jpg"/></item><item><title>Saída Rápida Pela Esquerda</title><link>https://msmelo.blog/posts/saida-rapida/</link><pubDate>Sat, 27 Jan 2024 00:00:00 +0000</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/saida-rapida/</guid><description>O trenzinho da sacanagem</description><content:encoded>&lt;p&gt;— Próximo!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Bom dia &lt;strong&gt;meu rei&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Senhor, por favor. Pode seguir o corredor e virar à &lt;strong&gt;direita&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O processo seletivo para acessar a República da Asa Branca não era difícil se você tivesse o mínimo de noção. A entrada para os habitantes do &lt;strong&gt;Brasil do Sul&lt;/strong&gt; mais utilizada vinha de Minas Gerais e tinha em Cândido Sales o seu posto de acesso para triagem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Além dos documentos pessoais, uma pequena entrevista era realizada para verificar se a pessoa era merecedora de acessar o país recém formado pelo &lt;strong&gt;Consórcio Nordeste&lt;/strong&gt;. Das mais de duzentas requisições que apareciam por dia, apenas uma dúzia delas eram aprovadas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Devido a essa baixa taxa de aceitação, a fila era popularmente conhecida como “&lt;em&gt;trenzinho da sacanagem&lt;/em&gt;”&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Próxima, por favor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Bom dia, aqui estão meus documentos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Qual o motivo da visita, senhora?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Vim para a &lt;strong&gt;benção do Olodum&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Que é que dia mesmo?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Sexta. Sexta-feira.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— …&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Né?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Pode seguir o corredor e virar a direita senhora. Boa diversão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Duas vezes ao dia, &lt;strong&gt;alto-falantes ecoavam a voz da Maga Margareth Menezes cantando Faraó&lt;/strong&gt;. Assim que ela puxava o refrão “&lt;em&gt;Eu falei Faraó ó óoooo&lt;/em&gt;” havia uma pequena pausa no som para esperar o retorno dos candidatos. Todos aqueles que não repetiam “&lt;em&gt;Êee Faraóooo&lt;/em&gt;” eram convidados a se retirar e tentar um outro dia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando faltava pouco menos de vinte pessoas para encerrar o expediente, chegou a vez de um casal de jovens vestidos com o manto do &lt;strong&gt;Santa Cruz&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Boa tarde, viemos acompanhar um dos maiores clássico do país.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Depois do &lt;em&gt;Ba x Vi&lt;/em&gt;?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Por isso eu disso &lt;strong&gt;um dos&lt;/strong&gt;. Respondeu a moça se antecipando ao hesitante jovem que lhe acompanhava.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Vocês terão que correr, viu? O jogo é hoje a noite e ainda tem muito chão pela frente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— O carro já está com o trajeto sincronizado, pagamos todas as taxas e vai dar tempo sim moço. &lt;em&gt;Vi&amp;hellip; Visse&lt;/em&gt;?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— E o Santa vai jogar contra quem mesmo?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— &lt;strong&gt;Náutico&lt;/strong&gt;. Respondeu o rapaz de bate-pronto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— O grande &lt;strong&gt;Leão da ilha&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Isso!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Ok, é o suficiente, podem seguir o corredor e virar a &lt;strong&gt;direita&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O atendente, cansado de um longo dia de trabalho, olhou por um momento o casal caminhando sorrindo antes de chamar os próximos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Pode vim família.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Boa tarde, aqui estão os documentos, incluindo a certidão de nascimento dessa jovem mocinha que tá doida pra ver o mar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— &lt;strong&gt;Espírito Santo&lt;/strong&gt;?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Sim, mas moramos em Minas, a pequena aqui nasceu em &lt;strong&gt;Teófilo Otoni&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Sim, tô vendo. Gostam de moqueca né?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Bastante, bastante&amp;hellip;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— &lt;strong&gt;Qual o principal ingrediente de uma boa moqueca&lt;/strong&gt;?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O senhor suou um pouco, dava para ver sua pele avermelhando em caroços e manchas que lhe tomavam todo o pescoço. Ele secou as mãos na camisa, respirou fundo e respondeu:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— &lt;strong&gt;Dendê&lt;/strong&gt;?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Muito bem! Sejam bem vindos família. &lt;strong&gt;No final do corredor vocês vão virar para a esquerda&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Antes de seguirem o caminho indicado, pararam por um instante ao ouvirem gritos de horror vindos da outra porta. Se benzeram e, antes que a mãe da pequena Valentina girasse a maçaneta, a porta abriu e uma luz intensa preencheu todo o corredor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em meio a um mar de sorrisos e muitas boas vindas recebidas, um rapaz gritou do outro lado:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— &lt;em&gt;Bebeu água&lt;/em&gt;?!&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;🪬&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;Esse conto eu &lt;strong&gt;publiquei originalmente no dia 14 de Julho de 2020&lt;/strong&gt;. Essa semana tava vendo um desses vídeos curtos no instagram, e tinha uma moça encenando com algumas falas iguais até. Me lembrei do meu texto na hora, alguns amigos também, mas não é uma ideia tão fora da caixinha que nenhuma outra pessoa pudesse ter 😊.&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/saida-rapida/featured.jpg"/></item><item><title>Delito de Amor em Salvador</title><link>https://msmelo.blog/posts/delito-amor-salvador/</link><pubDate>Fri, 26 Jan 2024 00:00:00 +0000</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/delito-amor-salvador/</guid><description>Se amar demais for crime, prenda nós tudo aqui!</description><content:encoded>
&lt;h1 class="relative group"&gt;Delito de amor em Salvador
&lt;div id="delito-de-amor-em-salvador" class="anchor"&gt;&lt;/div&gt;
&lt;span
class="absolute top-0 w-6 transition-opacity opacity-0 -start-6 not-prose group-hover:opacity-100 select-none"&gt;
&lt;a class="group-hover:text-primary-300 dark:group-hover:text-neutral-700 !no-underline" href="#delito-de-amor-em-salvador" aria-label="Âncora"&gt;#&lt;/a&gt;
&lt;/span&gt;
&lt;/h1&gt;
&lt;p&gt;Vieram de mãos dadas, mas não se olhavam. Não prestavam atenção nem mesmo nas pessoas ao redor. Elas que desviassem, se quisessem. Eles não, andavam em linha reta. Pisavam na grama, derrubavam placas com nomes de plantas em latim e até pisaram em algumas formigas que morreram sem cumprir suas horas diárias de trabalho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela era mais alta. Suas tranças iam até o meio das costas e no braço esquerdo carregava &lt;strong&gt;uma bolsa daquelas que mudavam de cor&lt;/strong&gt;. Ele ostentava um batidão de prata no pescoço, usava o cabelo na máquina um e vestia uma camisa do &lt;strong&gt;PFC Cajazeiras&lt;/strong&gt;. Ninguém ali, exceto os dois, sabia da existência daquele time. E era esse o tipo de piada interna que eles curtiam. Deleitavam-se observando outras pessoas tentando compreender o que usavam. Às vezes, alguns mais ousados perguntavam se a bolsa dela era alimentada por energia solar ou &lt;em&gt;&amp;lsquo;o quê?&amp;rsquo;&lt;/em&gt;. Quando isso acontecia, a mulher dava uma risada bem gostosa e cheia de dentes, respondia &lt;em&gt;&amp;lsquo;o quê&amp;rsquo;&lt;/em&gt; e dava um tapinha na bolsa para ela trocar de cor outra vez.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os dois andaram do &lt;strong&gt;Campo da Pólvora&lt;/strong&gt; até o &lt;strong&gt;Dique do Tororó&lt;/strong&gt; sem sequer se darem ao trabalho de olhar pros lados ao atravessar as ruas. Pararam bem na margem, de frente para as estátuas dos Orixás restauradas com zinco prateado. Primeiro jogaram alguns pertences no chão, a bolsa, o batidão e todos os acessórios e penduricalhos que completavam o visual. &lt;strong&gt;Depois começaram a se despir&lt;/strong&gt;. Ela tirou toda a roupa até ficar de maiô — &lt;em&gt;“azul Iemanjá”&lt;/em&gt;, a mulher gritou para uma jovem que estava ao seu lado — , antes da menina sequer abrir a boca. A garota, que usava um daqueles &lt;em&gt;bonés de aba dupla&lt;/em&gt; da moda, só queria saber onde ela havia comprado aquele acessório &lt;strong&gt;deslumbrante&lt;/strong&gt;, mas aceitou a resposta de bom grado e ficou calada observando o rapaz tirar a roupa também.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ele despiu-se até ficar apenas de sunga branca&lt;/strong&gt;. A camisa do &lt;strong&gt;PFC Cajazeiras&lt;/strong&gt; foi a única peça que dobrou com cuidado antes de jogar na grama por cima de todos os seus pertences.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um guarda municipal surgiu de cima de um aerociclo barulhento. Apitou três silvos agudos e parou defronte ao casal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Que &lt;strong&gt;putaria&lt;/strong&gt; é essa, posso saber companheiros? — O guarda falou enquanto jogava seu boné azul marinho (com o emblema da pomba branca da Prefeitura Municipal de Salvador) nas águas turvas do Dique.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A menina, que só queria tirar uma dúvida simples, olhava, estupefata, o guarda arrancar o resto do seu uniforme com &lt;strong&gt;ódio e destreza&lt;/strong&gt;. Os botões da camisa estouravam e escapuliam no ar como rolhas de Espumante. Antes de jogar sua camisa sem os botões pro alto, ele a girou três vezes acima de sua cabeça que brilhava de suor. No aerociclo, que continuava planando ao seu lado, ele guardou o apito e o distintivo antes de virar-se para o rapaz de sunga e a mulher de maiô.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Eu perguntei, &lt;strong&gt;que putaria é essa casal&lt;/strong&gt;? — O guarda, que essa altura estava vestindo apenas uma cueca box cinza, parou entre os dois e balançou a cabeça esperando uma resposta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A mulher correu para trás do oficial municipal. O rapaz foi para o outro lado e parou bem na frente do guarda, puxou a sunga branca mais pra cima, colou o rosto nele e falou, levantando os braços para a plateia que se formava naquela tarde quente que só a &lt;em&gt;disgraça&lt;/em&gt;:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— É &lt;strong&gt;a dança do maxixe&lt;/strong&gt;, só que ao invés de duas mulheres, vão ser dois homens.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Oxe, oxe, oxe, como assim? &lt;em&gt;Quede&lt;/em&gt; o alvará da prefeitura campeão? — Perguntou o guarda.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Que &lt;em&gt;ará&lt;/em&gt;? Tenho nada aqui comigo não, viu. E te digo mais — o rapaz apontava o dedo mole quase dentro da boca do guarda — se você for esse oficial todo, pode chamar alguém pra me prender. Se amar demais for crime, &lt;em&gt;prenda nós tudo aqui&lt;/em&gt;! — Disse o homem abraçando a mulher com força e &lt;strong&gt;amassando o oficial&lt;/strong&gt; que suava feito cuzcuz entre eles.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A multidão, que a essa altura se aglomerava em torno dos três, começou a cantar &lt;strong&gt;“É um guarda no meio com um casal fazendo sanduíche…”&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um rojão foi aceso. Dois cachorros vira-latas saíram correndo atrás de um robô de entregas e algumas crianças começaram a chorar pois estavam ali esperando há mais de &lt;em&gt;uma hora de relógio&lt;/em&gt; o show da dupla robótica &lt;em&gt;boboti, bobotá&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A menina do boné de aba dupla aproveitou o fuzuê, desviou de um drone que desceu &lt;strong&gt;do nada&lt;/strong&gt; com um isopor lotado de cerveja, e saiu esgueirando-se no meio daqueles corpos salgados de suor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela saiu se arrastando até alcançar a bolsa da mulher que já estava laranja, da cor do céu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Sabia! — Como ela já desconfiava desde o início, era mesmo da &lt;em&gt;Xiaomi&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;👀&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;Publiquei esse conto orignalmente no Medium em &lt;strong&gt;2 de Junho de 2021&lt;/strong&gt;. A história surgiu do nada na minha mente, quando eu me lembrei que aqui em Salvador, qualquer aglomeração que se forme, aparece gente do nada pra animar, surgem vendedores com isopor lotados de bebida, cachorro, criança chorando, o &lt;em&gt;caralho aquático&lt;/em&gt;. Gosto de imaginar o futuro de Salvador preservando as mesmas coisas comuns que acontecem na cidade há séculos.&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/delito-amor-salvador/featured.jpg"/></item><item><title>Ela Tinha Medo</title><link>https://msmelo.blog/posts/ela-tinha-medo/</link><pubDate>Thu, 18 Jan 2024 08:47:59 -0300</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/ela-tinha-medo/</guid><description>Ela tinha medo de ser assaltada num condomínio fechado com segurança 24 horas e câmeras a cada dois metros.</description><content:encoded>&lt;p&gt;Ela tinha medo das coisas mais mundanas até as impossíveis. Tinha medo de escorregar, de andar descalça, &lt;strong&gt;medo da água que encostava na sanduicheira elétrica&lt;/strong&gt;, da cafeteira explodir, de usar panela de pressão, de tomadas mal encaixadas e de fios aparentes. &lt;strong&gt;Medo de deixar a televisão ligada, de tomar café muito forte, de tomar café à noite, de comer comida pronta, de viajar sem levar sua própria comida.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela tinha medo da carne assada no ponto, da comida com sal, dos biscoitos com açúcar. Da janela aberta, de portas destrancadas, da varanda sem rede de proteção, de subir no elevador, de descer no elevador. &lt;strong&gt;De elevador.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela tinha medo de escorpiões alpinistas, de aranhas nadadeiras, de peixes grandes, de piabas com dentes de piranha, &lt;strong&gt;medo do cachorro na coleira, medo do cachorro soltar da coleira e lhe dar uma mordida, com seu dente canino, acertar uma veia e sangrar até morrer.&lt;/strong&gt; Ela tinha medo de gato, de hamster, de polvos gigantes, de moréias elétricas e de cobras que escalam plantas de galhos finos sem quebrá-los.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela tinha medo de água parada, de correnteza, das ondas do mar, da areia da praia, das pessoas andando de bicicleta na ciclovia, das bicicletas no meio da rua, medo de atravessar fora da faixa, medo de atravessar dentro da faixa sem olhar para os lados mais de uma vez, medo de atravessar uma rua sem faixas e sem carros vindo &lt;strong&gt;— e se uma moto poderia surgir do nada? —&lt;/strong&gt; ela tinha medo de homens na moto, medo de moto. Tinha medo de entrar no ônibus errado, de pegar ônibus vazio, de pegar ônibus cheio, de andar em carro de aplicativo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela tinha medo de pessoas desconhecidas, &lt;strong&gt;de sair de casa sem agasalho num calor de 32 graus (o tempo podia virar)&lt;/strong&gt;, de sair na rua à noite, de sair na rua muito cedo, do vento na cara, da poeira que subia, de faltar energia quando estivesse em casa ou na rua, de água da torneira, de água filtrada mecanicamente, de comer na rua, de comer em barracas, de comer na praia, de comidas gordurosas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela tinha medo de filme violento, de sair de casa sem os documentos, de levantar rápido ao acordar, de dormir muito tarde, &lt;strong&gt;do que lia no celular, de usar demais o celular, de mercado &lt;em&gt;mal frequentado&lt;/em&gt;, de glutamato monossódico, de realçador de sabor e de ficar doente.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela tinha medo que alguém lhe dissesse a verdade ou que lhe contassem mentiras. &lt;strong&gt;Medo de ficar pobre. De saber que é pobre. Medo de falar de política e também do fantasma do comunismo.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela tinha medo de estar ausente, de ficar doente, de tomar remédio vencido, de não tomar os remédios, de tomar muito sol, &lt;strong&gt;de esquecer da Vitamina D&lt;/strong&gt;, de guardar os produtos que vinham do mercado sem higienizá-los, de lugares desconhecidos, de conhecer novos lugares, de boatos, de coisas que lia no &lt;em&gt;whatsapp&lt;/em&gt;, de comida não refrigerada, &lt;strong&gt;de piratas, de pessoas estranhas, de portões eletrônicos, de apertar o botão errado&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela tinha medo de ser assaltada num condomínio fechado com segurança 24 horas e câmeras a cada dois metros, de deixar as coisas do lado de fora da casa, &lt;strong&gt;de comer demais, de esquecer de comer, de sentar no chão, de sair de casa sem álcool em gel na bolsa, da bateria do celular descarregar, de sair sem o celular, de sair com o celular.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela tinha medo de morrer. &lt;strong&gt;Medo de viver.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;h4 class="relative group"&gt;👀 Uma curiosidade sobre como nasceu esse texto:
&lt;div id="-uma-curiosidade-sobre-como-nasceu-esse-texto" class="anchor"&gt;&lt;/div&gt;
&lt;span
class="absolute top-0 w-6 transition-opacity opacity-0 -start-6 not-prose group-hover:opacity-100 select-none"&gt;
&lt;a class="group-hover:text-primary-300 dark:group-hover:text-neutral-700 !no-underline" href="#-uma-curiosidade-sobre-como-nasceu-esse-texto" aria-label="Âncora"&gt;#&lt;/a&gt;
&lt;/span&gt;
&lt;/h4&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Eu viajei com um grupo de pessoas ano retrasado, uma delas tinha medo de tanta coisa que comecei a catalogar cada uma delas no celular. Real, oficial.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;</content:encoded><media:content xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://msmelo.blog/posts/ela-tinha-medo/featured.jpg"/></item><item><title>Olá Mundo!</title><link>https://msmelo.blog/posts/ola-mundo/</link><pubDate>Mon, 15 Jan 2024 00:00:00 +0000</pubDate><guid>https://msmelo.blog/posts/ola-mundo/</guid><description>Propositalmente ele vai ser assim mesmo, nessa vibe início dos anos 2000.</description><content:encoded>&lt;p&gt;Olá mundo, este é o meu novo 🏡 &lt;strong&gt;sítio particular&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Criei com o intuito de colocar meus textos, ebooks e (espero) livros num só lugar. Um cantinho particular em dias de algoritmos e &lt;em&gt;big techs&lt;/em&gt; que comandam a internet como eles acham que deve ser é uma grande conquista.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Propositalmente ele vai ser assim mesmo. Nessa &lt;strong&gt;vibe início dos anos 2000&lt;/strong&gt; para relembrar um pouco o meu primeiro blog que tive há mais de vinte anos atrás 😶‍🌫️!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ele é bem simples, escrevo os textos basicamente num bloco de notas. Depois que pegar mais &lt;em&gt;as manhas&lt;/em&gt; eu devo incrementar e colocar caixa de comentários ou outros portais de monstros e feras abissais da internet.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;Para fechar, deixo um trecho de uma grande poesia baiana criada pelo conjunto musical e artístico &lt;strong&gt;Pagodart&lt;/strong&gt;:&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;Que ovo é esse, Hambúrguer? Parece até de avestruz&amp;hellip;&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;</content:encoded></item></channel></rss>